Ao ler a 2ª proposta de I. Calvino, a Rapidez, lembrei-me de um livro que me acompanha há muitos anos e que me parece novo a cada releitura: Sendas de Oku, de Matsuo Bashô, poeta japonês do séc. XVII. Vislumbrei, então, a possibilidade de fazer uma ponte entre a ocidental rapidez literária, proposta por Calvino como “riqueza das formas breves, com tudo aquilo que elas pressupõem como estilo e como densidade de conteúdo”, e a oriental poética do instante de Bashô.
Sendas de Oku é um dos cinco diários de viagem escritos por Bashô, em que ele inicia dizendo:
“Os meses e os dias são viajantes da eternidade. O ano que se vai e o que vem também são viajantes. Para aqueles que deixam flutuar suas vidas a bordo dos barcos, ou envelhecem conduzindo cavalos, todos os dias são viagem e sua casa mesma é viagem.
Entre os antigos, muitos morreram em plena rota. A mim mesmo, já há muito tempo, como giro de nuvem arrastada pelo vento, agitavam-se em mim pensamentos de perambulação”.
Seus diários são escritos num gênero literário muito em voga na época: o haibun, texto em prosa que rodeia, como se fossem pequenas ilhas, um grupo de haikus. Poemas e passagens em prosa se completam e reciprocamente se iluminam.
Como diz Octavio Paz no mesmo livro, os haikus são construções poéticas de muita simplicidade, com uma concentração verbal em que algumas linhas trazem uma pluralidade de reflexões e alusões, convidando a ver através de suas palavras. Eles revelam o instante poético, a anotação rápida de um momento privilegiado: exclamação poética, caligrafia, pintura e meditação, tudo junto. O haiku de Bashô é também exercício espiritual. E, com delicadeza, ele não nos diz tudo, somente entrega os elementos suficientes para acender uma chispa em nós.
Trégua de vidro:
o som da cigarra
aturde rochas.
Comentando sobre a tradução que fez deste poema, Octavio Paz diz:
“Bashô opõe, sem opô-los expressamente, o material e o imaterial, o silencioso e o sonoro, o visível e o invisível, a quietude do campo perante a agitação humana, a extrema dureza da pedra e a fragilidade do canto das cigarras. Duplo movimento: a consciência intranqüila do poeta sossega e se alivia ao fundir-se na imobilidade da paisagem, a broca sonora da cigarra penetra na rocha muda, o agitado se acalma e o pétreo se abre, o sonoro invisível (o chilrear do inseto) atravessa o visível silencioso (a rocha). Todas estas oposições se resolvem, se fundem, em uma espécie de fixidez instantânea que dura o que duram as dezessete sílabas do poema e que se dissipa como se dissipa a cigarra, a rocha, a paisagem e o poeta que escreve… (…) a palavra trégua – em lugar de quietude, sossego, calma – acentua o caráter instantâneo da experiência que evoca Bashô: momento de suspensão e armistício, o mesmo no mundo natural como na consciência do poeta. Esse momento é silencioso e esse silêncio é transparente: o chio da cigarra se torna visível e transpassa a rocha. Assim, a trégua é de vidro, uma matéria que é homólogo visual do silêncio: as imagens atravessam a transparência do vidro como o som atravessa o silêncio”.
Em seus haikus, Bashô nos revela instantes, somente instantes…
BASHÔ, Matsuo – Sendas de Oku. Tradução: Olga Savary. São Paulo: Roswitha Kempf, 1983.
Marly
Sobre o instante…
Calvino termina assim o ensaio sobre a Rapidez: “Comecei essa conferencia contando uma história; permitam que a termine com outra. E´uma história chinesa:
Entre as múltiplas virtudes de Chuang-Tsê estava a habilidade para desenhar. O rei pediu-lhe que desenhasse um caranguejo. Chuang-Tsê disse que para faze-lo precisaria de cinco anos e uma casa com doze empregados. Passado cinco anos não havia sequer começado o desenho. “Preciso de outros cinco anos” disse Chuang-Tsê. O rei concordou. Ao completar-se o ultimo décimo ano, Chuang-Tsê pegou o pincel e num instante, com um único gesto, desnhou o caranguejo, o mais perfeito caranguejo que jamais se viu. ”
Ítalo Calvino, “Rapidez”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.67
Pois é, Cris… Para se chegar a essa expressão que capta e transmite o essencial é necessário todo um trabalho anterior, e interior. Nisso temos muito a aprender com os orientais…
Bashô foi discípulo de Buccho, mestre do budismo Zen, e alternava a poesia com a meditação. Homem frugal e pobre, já com muita idade, perambulou por todo o Japão dormindo em ermidas e pousadas populares. Contemplava longamente uma árvore e um corvo sobre ela, o brilho da luz sobre uma pedra… e depois de remendar suas próprias roupas, lia os clássicos chineses. E, apesar de silencioso, falava com os lavradores, monges e crianças que encontrava pelo caminho. Um dia antes de morrer, escreveu:
Caído na viagem,
meus sonhos na planície
dão voltas e mais voltas.