“Dado que me propus em cada uma destas conferências recomendar ao próximo milênio um valor que me seja especialmente caro, o valor que hoje quero recomendar é precisamente este: numa época em que outros “media” triunfam , dotados de uma velocidade espantosa e de um raio de ação extremamente extenso, arriscando reduzir toda comunicação a uma crosta uniforme e homogênea, a função da literatura é a comunicação entre o que é diverso pelo fato de ser diverso, não embotando, mas antes exaltando a diferença, segundo a vocação própria da linguagem escrita.
O século da motorização impôs a velocidade como um valor mensurável, cujos recordes balizam a história do progresso da máquina e do homem. Mas a velocidade mental não pode ser medida e não permite comparações ou disputas, nem pode dispor os resultados obtidos numa perspectiva histórica. A velocidade mental vale por si mesma, pelo prazer que proporciona àqueles que são sensíveis a esse prazer, e não pela utilidade prática que se possa extrair dela. Um raciocínio rápido não é necessariamente superior a um raciocínio ponderado, ao contrário; mas comunica algo de especial que está precisamente nessa ligeireza.
…Na vida prática, o tempo é uma riqueza de que somos avaros; na literatura, o tempo é uma riqueza de que se pode dispor com prodigalidade e indiferença: não se trata de chegar primeiro a um limite preestabelecido; ao contrário, a economia de tempo é uma coisa boa, porque quanto mais tempo economizamos, mais tempo poderemos perder.
A rapidez de estilo e de pensamento quer dizer antes de mais nada agilidade, mobilidade, desenvoltura; qualidades essas que se combinam com uma escrita propensa às divagações, a saltar de um assunto para outro, a perder o fio do relato para re-encontrá-lo ao fim de inumeráveis circunlóquios.” P.59
Ítalo Calvino, “Rapidez”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.56-59

O nosso raciocinio hoje tem a velocidade com que processamos as sinteses das informações.
antes, o processo era organico, primeiro o cheiro, o tato, o observar paciente,o som, a luminosidade….e o universo penetrava nosso ser, dando a sabedoria e a compreensão do mundo.
A agilidade da nossa mente , as vezes parece um Cirque du Soleil de tanta contorção e rapidez que simula verdadeiros voos.
um prazer em ser veloz, uma sensação de estar na velocidade da velocidade…de parecer rapido sem sair do limite que alguem me concede para ouvir, ou ler….
é…beleza , rapidez, e mais algumas tecnicas pra suportar o nosso mecanismo super lotado de tecnologia imediatista…
como a janela de um trem bala…não se ve a natureza…apenas a beleza da velocidade….
Nossa, Leda! que belíssimo e profundo comentário.
Achei muito pertinente para nos ajudar a distinguir com um pouco mais de clareza – e lentamente – o valor que Calvino tenta resgatar em nós: ” A rapidez de estilo e de pensamento quer dizer antes de mais nada agilidade, mobilidade, desenvoltura…” ou seja um ritmo pessoal que nos possibilite dar conta de quem somos realmente, como estabelecemos nossas próprias conexões mentais, o que queremos filtrar e/ou incorporar dessa massa de informações, que como ele mesmo diz:
(…) “numa época em que outros “média” [a palavra em portugues seria mídia?] triunfam , dotados de uma velocidade espantosa e de um raio de ação extremamente extenso, arriscando reduzir toda comunicação a uma crosta uniforme e homogênea, a função da literatura é a comunicação entre o que é diverso pelo fato de ser diverso, não embotando, mas antes exaltando a diferença…”
Religar-se com sua própria natureza interna, com o Ser essencial que em nós manifesta-se na multiplicidade de formas das quais somos expressões únicas e singulares – exige sim uma “rapidez” que não se traduz como velocidade, pressa, disparada, mas antes, me parece uma tomada de consciencia, um discernimento/reconhecimento de nossa propria diversidade e identidade como seres humanos (e portanto também divinos de origem) sem nos deixarmos perder e misturar nessa massa indiferenciada que tenta nos reduzir a meros consumidores ou conceitos similares.
Neste sentido, é preciso sermos rápidos!
“Desde o início, em meu trabalho de escritor, esforcei-me para seguir o percurso velocíssimo dos circuitos mentais que captam e reúnem pontos longínquos do espaço e do tempo. Em minha predileção pela aventura e a fábula buscava sempre o equivalente de uma energia interior, de uma dinâmica mental. Assestava para a imagem e para o movimento que brota naturalmente dela, embora sabendo sempre que não se pode falar de um resultado literário senão quando essa corrente da imaginação se transforma em palavras.”
Ítalo Calvino, “Rapidez”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.61
Apenas a titulo de curiosidade e para imaginarmos onde chega essa proposta de Calvino, transcrevo um trecho que encontrei num blog sob o Título Escalando com Calvino, parte 2 – Por Edson Struminski (Du Bois):
” É muito mais estranho falar da rapidez no mundo literário do que no mundo da montanha, pois no mundo físico isto é um tanto óbvio, parece mesmo uma característica da modernidade. Para nós, montanhistas, é fácil imaginarmos, por exemplo, a diferença entre cordadas rápidas e lentas. Mas assim como no caso da leveza, o tema que interessa para Ítalo Calvino e que diz respeito a nós montanhistas não é tanto a velocidade física, mas a relação entre a velocidade física e a velocidade mental.
Para Calvino a rapidez não significa escrever ou ler rápido e sim acontecimentos se sucedendo rapidamente. É como aquilo que pode acontecer em uma escalada, acontecimentos rápidos em uma luta contra o tempo, contra os obstáculos que impedem ou retardam a realização de um desejo. Algo que faz muito sentido na montanha, onde inúmeras histórias de cordadas fazendo escaladas lentas, que parecem se arrastar, já nos dão a antevisão de fracassos ou de situações até mais trágicas, ao passo que cordadas rápidas sugerem habilidades insuspeitadas.
…Isto porque para Calvino, na vida prática, principalmente nos dias atuais, o tempo é uma riqueza de que nos tornamos avaros, por isto a economia de tempo é uma coisa boa, porque quanto mais tempo economizamos, mais tempo poderemos gastar, por exemplo, no fim de uma escalada, no cume de uma montanha, vendo um por de sol ou arrumando um bivaque com mais tranqüilidade.
A rapidez se ajusta muito bem, então, quando estamos falando de escaladas longas, onde minutos se transformam em horas e horas em dias, com tudo o que isto implica na sucessão de acontecimentos, decisões, dramas, aventuras e glórias (ou derrotas). A literatura de montanha está repleta de situações em que identificamos claramente a lentidão ou a rapidez como um fator determinante para uma história tomar um rumo ou outro.”
Fonte: http://blogdodubois.wordpress.com/2009/03/20/escalando-com-italo-calvino-parte-2/
Que achado, Cris!!!
O que Edson diz sobre a escalada da montanha poderia ser aplicado também à escalada da vida. Quantas vezes as situações exigem de nós decisões rápidas e precisas, vencer obstáculos e enfrentar riscos? E outras pedem uma outra atitude, mais ponderada, para podermos apreciar a sua natureza sem a pressão da velocidade, como sugere a Leda.
Mas será que precisamos lidar com o tempo como algo a ser ganho ou a ser perdido? Seria possível lidar com o tempo de outra maneira, percebendo as diferentes temporalidades que vão além daquela decretada pelos relógios? Muitas vezes, na pressa de alcançar algo desejado, não nos damos conta da riqueza contida em cada instante…
Muito romantismo se atribui a “riqueza contida nos instantes”.
Essse olhar minuncioso, como se tudo fosse
ritualisticamente divino,se registrou nos anos contemplativos dos apreciadores da natureza…
Os apreciadores da natureza, agora, são defensores legais de patrimonios humanos… a natureza se tornou posse dos homens…acabando assim o tempo da apreciação ,onde cada traço ,cada cor e cada forma que a natureza produzia por esses bilhoes de anos…eram reveneciadas como misterios.
O tempo tem seus tempos.
Esse é um exemplo de sensibilidade e tempo.
Assim se formata a leitura da realidade, e a realidade da
leitura.