“Começarei pelo relato de uma antiga lenda.
O imperador Carlos Magno, já em avançada idade, apaixonou-se por uma donzela alemã. Os barões da corte andavam muito preocupados vendo que o soberano, entregue a uma paixão amorosa que o fazia esquecer sua dignidade real, negligenciava os deveres do império. Quando a jovem morreu subitamente, os dignatários respiraram aliviados, mas por pouco tempo, pois o amor de Carlos Magno não morreu com ela. O imperador mandou embalsamar o cadáver e transporta-lo para sua câmara, recusando separar-se dele.
O arcebispo Turpino, apavorado com essa paixão macabra suspeitou que havia ali um sortilégio e quis examinar o cadáver. Oculto sob a língua da morta, encontrou um anel com uma pedra preciosa. A partir do momento em que o anel passou às mãos de Turpino, Carlos Magno apressou-se em mandar sepultar o cadáver e transferiu seu amor pela pessoa do arcebispo. Turpino, para fugir àquela embaraçosa situação, atirou o anel no lago Constança. Carlos Magno apaixonou-se então pelo lago e nunca mais quis se afastar de suas margens.

Ítalo Calvino, “Rapidez”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.45
(…) A corrida do desejo em direção a um objeto que não existe, uma ausência, uma falta, simbolizada pelo círculo vazio do anel, é dada mais pelo ritmo do conto do que pelos fatos narrados. Do mesmo modo, toda narrativa é percorrida pela sensação da morte em que parece debater-se ansiosamente Carlos Magno à medida que se agarra aos liames da vida e que vai aplacar-se mais tarde na contemplação do lago.” P.46
“A corrida do desejo em relação a um objeto que não existe, uma ausência, uma falta “….não estaremos nós cotidianamente circunscritos nessa esfera do anel? Oxalá consigamos chegar em algum momento, à beira do lago.
sobre a rapidez de Italo Cavino encontrei num blog:
“Ao examinar a rapidez na criação literária, Calvino faz uma avaliação que serve com justeza à nossa arte nordestina do Repente: “A velocidade mental vale por si mesma, pelo prazer que proporciona àqueles que são sensíveis a esse prazer, e não pela utilidade prática que se possa extrair dela. Um raciocínio rápido não é necessariamente superior a um raciocínio ponderado, ao contrário; mas comunica algo de especial que está precisamente nessa ligeireza”.
Quanto mais leio esse livro de Calvino, mais vou ficando encantada com o que encontro.
Se, por um lado, ele trata de alguns valores ou qualidades ou especificidades da literatura, buscando situá-los na perspectiva do novo milênio, por outro, ele nos brinda com contos, mitos, lendas e citações literárias que nos convidam a ir além do que ele diz
Na lenda de Carlos Magno, o anel aparece como o principal protagonista, como uma “força especial”,”o pólo de um campo magnético”, “o nó de uma rede de correlações invisíveis”, “liame narrativo”.
Em sua simbologia, o anel traz um sentido de aliança, voto, destino associado, elo indissolúvel; além do sentido de vazio, nâo apenas como falta, mas também como vacuidade no centro do ser.
Esse caminho do velho imperador pode ser visto como um momento da vida em que vamos nos desligando das atrações mundanas e vamos em busca de algo, desse elo, que não está no que identificamos como objeto de amor e paixão, mas que nos atrai irresistivel e invisivelmente em direção a um nível interno mais profundo. Nele, vida e morte e amor podem ser contemplados nas translúcidas águas do lago. Mas é preciso cautela para não identificarmos essa etapa como o fim do caminho, e ficarmos paralisados nela. O anel continua oculto em águas mais profundas ainda…
Italo Calvino diz:
“Não se pode falar de um resultado literário senão quando essa corrente da imaginação se transforma em palavras”
Desde a minha infância e adolescência, que os meus livros preferidos eram os de aventura.
Me via como participante dessas aventuras, disputando com esses heróis do mesmo tempo e espaço.
Agora sei que preciso transformar em palavras essas histórias,para conseguir esse resultado literário.
Que bom Isabel! Gostaria muito de ver o resultado desse trabalho!