Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo de Junho de 2009

CINEBARIBE - Cinema Fluvial

Muito feliz, o Ghuga Távora nosso companheiro de Aprendizagem me contou hoje: - Aprovamos o CINEBARIBE na Lei Rouanet…! O CINEBARIBE foi um projeto criado por GHustavo Távora, que hoje em dia gera projetos em Artes Visuais e Educomunicação. A inspiração veio do desejo de atuar no despertar das Pessoas para a “Cosmovisão” fazendo com que as Pessoas se percebam parte da Natureza, e desta forma, ajude a preservação da mesma e de si. A partir da relação fotográfica das Pessoas com o MUNDO o projeto irá orientar os participantes do projeto para O Rio Capibaribe, ícone importantissimo da nossa Cultura e Patrimõnio Natural de Recife. O Projeto agrega artes visuais, educomunicação, ecologia e meio ambiente, produção artístico-cultural e mostra de artes - o auge será a projeção da produção audiovisual, a partir de um Catamarã que irá deslizar pelo Rio fazendo mostras para o “Público Marginal” , o nome da mostra será : “IMARGENS”.

Fui lá conferir esse projeto e fiquei encantada:

Cinebaribe - http://www.cinebaribe.blogspot.com/  Ghuga

“CINEBARIBE é um projeto completo que tem como objetivos específicos a inclusão social através da comunicação e aborda a comunicação como um direito humano. A proposta do projeto é trabalhar com desenvolvimento humano-social através de oficinas de fotografia criativa e vídeo experimental, a partir do pensamento da comunicação no século digital – a democratização da informação pela filosofia da Internet 2.0. O público específico são jovens e adolescentes que habitam comunidades ribeirinhas às margens do Rio Capibaribe.

O projeto CINEBARIBE foi desenvolvido dentro da filosofia do aprendizado transdisciplinar, portanto, é um projeto que lida com artes, comunicação e novas tecnologias.O projeto é baseado em 4 pilares básicos que são: Formação; Difusão; Inclusão e Registro Histórico. ”

No site está tudo muito bem explicadinho e se você tem algum projeto pessoal para desenvolver pode se beneficiar da qualidade e criatividade deste!!!

Ghuga e parceiros, a Companhia de Aprendizagem partilha desse sucesso e deseja vida próspera ao CINEBARIBE em tudo de bom e necessário que ele se propõe desenvolver.

TCris

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Dialogo com o Milênio - sob a lógica da complementaridade

Depois de um longo passeio por aguns exemplos literários que incluem a poética do italiano Giacomo Leopardi que sustentava “que a linguagem será tanto mais poética quanto mais vaga e imprecisa for[lembrando que partindo do significado original (wandering) , a palavra “vago” traz consigo uma idéia de movimento e mutabilidade, que se associa em italiano tanto ao incerto e indefinido quanto à graça e ao agradável]:

Bosque vermelho Horto Florestal Campos de Jordão

“…a luz do sol ou da lua, vista de um lugar de onde não se possa vê-los ou não se possa descobrir a fonte luminosa, um lugar somente em parte iluminado por essa luz; o reflexo dessa luz; e os vários efeitos materiais que dela resultam; o penetrar dessa luz em lugares onde ela se torne incerta e impedida, e mal se possa distingui-la, como através de um canavial, uma floresta, uma porta de varanda entreaberta, etc. … todos estes lugares onde a luz se confunde, etc…com as sombras, como sob um pórtico, uma varanda elevada e pênsil, em meio aos penhascos e despenhadeiros, ou num vale, sobre as colinas vistas da parte da sombra, de modo a que estejam dourados os cimos; …todos esses objetos, em suma, que por diversas circunstâncias materiais e ínfimas se apresentam à nossa vista, ouvido, etc de maneira incerta, imperfeita, incompleta ou fora do ordinário, etc.”

Eis o que Leopardi exige de nós para podermos apreciar a beleza do vago e do indeterminado! Para se alcançar a imprecisão desejada, é necessário a atenção extremamente precisa e meticulosa que ele aplica na composição de cada imagem, na definição minuciosa dos detalhes, na escolha dos objetos, da iluminação, da atmosfera. Assim Leopardi, que eu havia escolhido como contraditor ideal da minha apologia da exatidão, acaba se revelando uma testemunha decisiva a meu favor. O poeta do vago só pode ser o poeta da precisão, que sabe colher a sensação mais sutil com olhos, ouvidos e mãos prontos e seguros. “

Ítalo Calvino, “Exatidão”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.75

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Pascal Galvani & Companhia de Aprendizagem

Pascal Galvani cita o encontro realizado com a Companhia de Aprendizagem, em 2005, em seu artigo Transdisciplinarité et écologisation d’une formation universitaire : une pratique critique à partir du paradigme de la complexité (Transdisciplinaridade e ecologização de uma formação universitária: uma prática crítica a partir do paradigma da complexidade), publicado na revista Éducation relative à l’environnement : Regards – Recherches – Réflexions (Educação relativa ao meio ambiente: Olhares – Pesquisas – Reflexões) - vol. 7 – 2008, dizendo:

“Por ocasião do II Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, organizado em setembro de 2005 pelo CETRANS (Centro de Educação Transdisciplinar – São Paulo) em Vila-Velha/Vitória (Brasil), numerosos participantes expressaram a dificuldade de encontrar modelos operacionais para inventar práticas de formação e de pesquisa baseadas na abordagem transdisciplinar e na epistemologia da complexidade. Um grupo de pesquisa-ação do Cetrans organizou, então, uma mesa redonda sobre a metodologia reflexiva que eles haviam construído (Companhia de Aprendizagem, 2005) a partir dos trabalhos de Hélène Trocmé-Fabre (2004) e de minhas pesquisas”.

Galvani e H  l  ne   encontro com a Companhia 1 - Galvani e H  l  ne   encontro com a Companhia 1

Foi para nós uma alegria relembrar esse encontro, quando tivemos a oportunidade de dialogar com os autores que referenciaram o processo auto e co-formativo desenvolvido até então na Companhia, confirmando a pertinência da metodologia construída por nós. Pudemos também presentear os autores com exemplares da revista COMPANHIA, onde o resultado desse processo era apresentado, que é citada como referência no artigo de Galvani:

Companhia de aprendizagem. Revista COMPANHIA: um ateliê transdisciplinar. Embu das Artes (Brasil): Studium, 2005.

companhia de aprendizagem4 - companhia de aprendizagem4

Pascal Galvani é professor no Departamento de Ciências Humanas e Diretor do Programa de Mestrado em Estudo das Praticas Psicossociais da Universidade de Quebec em Rimouski - Canadá. Seus campos de pesquisa incluem as abordagens reflexivas, a pesquisa-ação-formação, a exploração fenomenológica e hermenêutica das experiências de formação, as démarches dialógicas de co-formação, assim como a educação e formação nas culturas ameríndias.

Hèlène Trocmé-Fabre é Doutora em Linguística e Doutora em Letras e Ciências Humanas. Autora de: J’apprends, donc je suis, Editions d’Organisation, 1987, poche 1994 ; Réinventer le métier d’apprendre, Editions d’Organisation, 1999 ; A Árvore do Saber- Aprender. Tradução Marly Segreto. São Paulo: TRIOM, 2004; Le langage du vivant, Editions Être et Connaître, 2004; Nascemos para Aprender. São Paulo: TRIOM, 2006.

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Diálogo com o Milenio - Uma pausa nas alturas…

Apresentamos aqui o Edson Struminski (Du Bois), companheiro de Aprendizagem quando se trata de Calvino. Ele é montanhista e traçou um paralelo entre a proposta de Exatidão de Calvino e o montanhismo, no seu artigo Escalando com Ítalo Calvino, parte 3 postado em Abril de 2009.

Fomos lá conferir, postamos um comentário e ele gentilmente nos retornou. Enquanto isso confira alguns trechos que ele escreveu:

“Calvino nos lança esta pergunta. Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Ele nos lembra, finalmente, que cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis, por isto, para ele, escrever vale à pena.”

Contemplando  o Pico Paraná
Momentos de partilha que o montanhismo oferece…

“Gostaria de terminar esta minha análise do livro do escritor italiano Ítalo Calvino em que ele apresentou propostas para o novo milênio (1), imaginando que se houver um leitor, mesmo que somente um entre os tantos que passam por este blog diariamente, que eventualmente se torne uma pessoa interessada nas propostas de Calvino para aperfeiçoar a literatura e que enxergue nestas propostas uma estranha, ainda que possível fonte de diálogo com o montanhismo (e com possibilidade de aperfeiçoá-lo), então estes textos terão valido a pena ser escritos.”

Valeu, Edson!

Conheça na íntegra o artigo acessando o link.

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Diálogo com o Milênio - a busca da Exatidão

Cynthia Gavião -  ateliercynthiagaviao.blogspot.com/
[Precisão] A exatidão
peça da Coleção Six Memos de Cynthia Gavião inspirada na proposta de Calvino

A palavra associa o traço visível à coisa invisível, à coisa ausente, à coisa desejada ou temida, como uma frágil passarela improvisada sobre o abismo. Por isto o justo emprego da linguagem é, para mim, aquele que permite o aproximar-se das coisas (presentes ou ausentes) com discrição, atenção e cautela, respeitando o que as coisas (presentes ou ausentes) comunicam sem o recurso das palavras. “

Ítalo Calvino, “Exatidão”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990.p.90-91

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Diálogo com o Milênio - Complementaridade entre sintonia e focalização

Para finalizar essa breve reflexão sobre os diferentes ritmos do tempo - assunto sobre o qual há tratados escritos em diferentes ramos do conhecimento - que nos suscitou Calvino no seu ensaio sobre a Rapidez, onde ele frisa bem - “O tema que aqui nos interessa não é a velocidade física, mas a relação entre velocidade física e velocidade mental… ” - trazemos suas considerações finais.

Nelas o autor passeia pela mitologia grega e cita: “Segundo o autor [André Virel, Histoire de notre image. Genebra, 1965)] , um estudioso do imaginário coletivo, de escola – creio – junguiana, Mercúrio e Vulcano representam as duas funções vitais inseparáveis e complementares. Mercúrio, a sintonia ou seja a participação no mundo que nos rodeia; Vulcano a focalização, ou seja a concentração construtiva. Mercúrio e Vulcano são ambos filhos de Júpiter, cujo reino é o da consciência individualizada e socializada.

… A concentração e “craftmanship” de Vulcano são as condições necessárias para se escrever as aventuras e metamorfoses de Mercúrio. A mobilidade e agilidade de Mercúrio são as condições necessárias para que as fainas intermináveis de Vulcano se tornem portadoras de significado, e da ganga mineral informe assumam forma os atributos divinos, cetros ou tridentes, lanças ou diademas.

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O trabalho do escritor deve levar em conta tempos diferentes: o tempo de Mercúrio e o tempo de Vulcano, uma mensagem de imediatismo obtida á força de paciente e minuciosos ajustamentos; uma intuição instantânea que apenas formulada , adquire o caráter definitivo daquilo que não poderia ser de outra forma; mais igualmente o tempo que flui sem outro intento que o de deixar as idéias e os sentimentos se sedimentarem , amadurecerem, libertarem-se de toda impaciência e de toda contingência efêmera.”

Ítalo Calvino, “Rapidez”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990.p.66

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A rapidez e o instante

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Ao ler a 2ª proposta de I. Calvino, a Rapidez, lembrei-me de um livro que me acompanha há muitos anos e que me parece novo a cada releitura: Sendas de Oku, de Matsuo Bashô, poeta japonês do séc. XVII. Vislumbrei, então, a possibilidade de fazer uma ponte entre a ocidental rapidez literária, proposta por Calvino como “riqueza das formas breves, com tudo aquilo que elas pressupõem como estilo e como densidade de conteúdo”, e a oriental poética do instante de Bashô.

Sendas de Oku é um dos cinco diários de viagem escritos por Bashô, em que ele inicia dizendo:

“Os meses e os dias são viajantes da eternidade. O ano que se vai e o que vem também são viajantes. Para aqueles que deixam flutuar suas vidas a bordo dos barcos, ou envelhecem conduzindo cavalos, todos os dias são viagem e sua casa mesma é viagem.

Entre os antigos, muitos morreram em plena rota. A mim mesmo, já há muito tempo, como giro de nuvem arrastada pelo vento, agitavam-se em mim pensamentos de perambulação”.

Seus diários são escritos num gênero literário muito em voga na época: o haibun, texto em prosa que rodeia, como se fossem pequenas ilhas, um grupo de haikus. Poemas e passagens em prosa se completam e reciprocamente se iluminam.

Como diz Octavio Paz no mesmo livro, os haikus são construções poéticas de muita simplicidade, com uma concentração verbal em que algumas linhas trazem uma pluralidade de reflexões e alusões, convidando a ver através de suas palavras. Eles revelam o instante poético, a anotação rápida de um momento privilegiado: exclamação poética, caligrafia, pintura e meditação, tudo junto. O haiku de Bashô é também exercício espiritual. E, com delicadeza, ele não nos diz tudo, somente entrega os elementos suficientes para acender uma chispa em nós.

Trégua de vidro:
o som da cigarra
aturde rochas.

Comentando sobre a tradução que fez deste poema, Octavio Paz diz:

“Bashô opõe, sem opô-los expressamente, o material e o imaterial, o silencioso e o sonoro, o visível e o invisível, a quietude do campo perante a agitação humana, a extrema dureza da pedra e a fragilidade do canto das cigarras. Duplo movimento: a consciência intranqüila do poeta sossega e se alivia ao fundir-se na imobilidade da paisagem, a broca sonora da cigarra penetra na rocha muda, o agitado se acalma e o pétreo se abre, o sonoro invisível (o chilrear do inseto) atravessa o visível silencioso (a rocha). Todas estas oposições se resolvem, se fundem, em uma espécie de fixidez instantânea que dura o que duram as dezessete sílabas do poema e que se dissipa como se dissipa a cigarra, a rocha, a paisagem e o poeta que escreve… (…) a palavra trégua – em lugar de quietude, sossego, calma – acentua o caráter instantâneo da experiência que evoca Bashô: momento de suspensão e armistício, o mesmo no mundo natural como na consciência do poeta. Esse momento é silencioso e esse silêncio é transparente: o chio da cigarra se torna visível e transpassa a rocha. Assim, a trégua é de vidro, uma matéria que é homólogo visual do silêncio: as imagens atravessam a transparência do vidro como o som atravessa o silêncio”.

Em seus haikus, Bashô nos revela instantes, somente instantes…

BASHÔ, Matsuo - Sendas de Oku. Tradução: Olga Savary. São Paulo: Roswitha Kempf, 1983.

Marly

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Diálogo com o Milênio - Rapidez é diferente de pressa…

“Dado que me propus em cada uma destas conferências recomendar ao próximo milênio um valor que me seja especialmente caro, o valor que hoje quero recomendar é precisamente este: numa época em que outros “media” triunfam , dotados de uma velocidade espantosa e de um raio de ação extremamente extenso, arriscando reduzir toda comunicação a uma crosta uniforme e homogênea, a função da literatura é a comunicação entre o que é diverso pelo fato de ser diverso, não embotando, mas antes exaltando a diferença, segundo a vocação própria da linguagem escrita.

O século da motorização impôs a velocidade como um valor mensurável, cujos recordes balizam a história do progresso da máquina e do homem. Mas a velocidade mental não pode ser medida e não permite comparações ou disputas, nem pode dispor os resultados obtidos numa perspectiva histórica. A velocidade mental vale por si mesma, pelo prazer que proporciona àqueles que são sensíveis a esse prazer, e não pela utilidade prática que se possa extrair dela. Um raciocínio rápido não é necessariamente superior a um raciocínio ponderado, ao contrário; mas comunica algo de especial que está precisamente nessa ligeireza.

http://www.sxc.hu// train ride

…Na vida prática, o tempo é uma riqueza de que somos avaros; na literatura, o tempo é uma riqueza de que se pode dispor com prodigalidade e indiferença: não se trata de chegar primeiro a um limite preestabelecido; ao contrário, a economia de tempo é uma coisa boa, porque quanto mais tempo economizamos, mais tempo poderemos perder.

A rapidez de estilo e de pensamento quer dizer antes de mais nada agilidade, mobilidade, desenvoltura; qualidades essas que se combinam com uma escrita propensa às divagações, a saltar de um assunto para outro, a perder o fio do relato para re-encontrá-lo ao fim de inumeráveis circunlóquios.” P.59

Ítalo Calvino, “Rapidez”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.56-59

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