Date: 2009.05.25 | Category: Agenciamento, Diálogo com o Milênio | Tags:

Ao tratar da leveza, a primeira das Seis propostas para o próximo milênio, Ítalo Calvino diz ser melhor deixar que seu “discurso se elabore com as imagens da mitologia”, buscando encontrar no mito de Perseu em seu combate com a Medusa uma “alegoria da relação do poeta com o mundo”.

Ortega y Gasset considera o mito como o ponto de partida de toda poesia. E Thomas Mann diz que o mito é um “esquema sem tempo” e que ele é “sem tempo” naquilo em que está sempre presente, como um constante lembrete.

Desse modo, personagens míticas como Perseu, Ulisses e tantos outros, podem ser considerados sempre presentes e são revividos para significar uma situação humana que perdura, independentemente de tempo e lugar.

A palavra mito provém do grego mÿthos, que significa palavra expressa, relato, narração. Como tradição transmitida oralmente, o mito se apresenta na cultura grega antiga como um relato vindo de um tempo que já existiria antes que alguém iniciasse sua narração. “Nesse sentido, o relato mítico não resulta da invenção individual nem da fantasia criadora, mas da transmissão e da memória…”, diz Jean-Pierre Vernant.

É notável o quanto os antigos mitos gregos continuam a alimentar reflexões fundamentais em nossa cultura. Desde a passagem da cultura oral para a cultura escrita, a literatura vem fazendo renascer (atualizando uns ou criando outros) motivos e símbolos que compõem o universo mítico. O texto literário atua como mediador entre a função simbólica e a dimensão mítica da consciência humana.

Segundo Mircea Eliade, “compreender os mitos equivale a reconhecê-los como fenômenos humanos, fenômenos de cultura, criação do espírito – e não como irrupção patológica de instintos, bestialidade ou infantilidade. O mito, oferecendo regras práticas para a orientação do homem, é um ingrediente vital da civilização humana; longe de ser uma fabulação vã, ele é, ao contrário, uma realidade viva, à qual se recorre incessantemente”.

Como diz Calvino, “não devemos ser apressados com os mitos; é melhor deixar que eles se depositem na memória, examinar pacientemente cada detalhe, meditar sobre seu significado…”.

Temos, então, que sair dos quadros habituais do pensamento (escapando do olhar da Medusa?) e, com um olhar indireto, ver o que as imagens revelam a nós e sobre nós.

Perseus shows Andromeda the head of Medusa Sir Edward B
Sir Edward Coley Burne-Jones – Perseu mostra a Andrômeda a cabeça da Medusa.

Marly

3 responses to “O Mito e a Literatura”

  1. TCris at 2009/05/26 14:13 says:

    E aproveitando essa reflexão agenciada sobre mito e literatura, vamos então nos preparando para o próximo atributo que Calvino escolheu estudar… onde o tempo representa um papel fundamental:

    “A relatividade do tempo aparece como tema num conto popular que se encontra difundido por quase toda parte: a viagem de ida ao além, que parece durar apenas algumas horas para quem a realiza, ao passo que, na volta, o ponto de partida se torna irreconhecível porque se passaram anos e anos. (…) Este motivo pode ser entendido inclusive como uma alegoria do tempo narrativo, de sua incomensurabilidade com relação ao tempo real. E pode-se reconhecer o mesmo significado na operação inversa, ou seja, na dilatação do tempo pela proliferação de uma história em outra, que é uma característica da novelística oriental. Sheherazade conta uma história na qual se conta uma história, e assim por diante.” p.50-51

    Ítalo Calvino, “Rapidez”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990

  2. ledah at 2009/05/26 18:32 says:

    No mito temos o heroi, o vilão e o objetivo final que dentro de um cenario nos leva pela mente abstrata , a uma vivencia interna do arquetipo representado no referido mito.
    o mal, aparece como o obstaculo que gera o atrito para a superação, não existindo um sentimento odioso, nem violento nos mitos classicos. Os herois são corajosos e geralmente com sua espada da verdadeira vontade, consegue fazer das provas uma celebração de virtude.

    Seria esse o foco do mito, o q nos resgataria de nosso proprio inferno, de nossas medusas e dragões …
    A literatura atual, muitas vezes perde um pouco essa profundidade e se deleita em criações fantasiosas sem conseguir manifestar o arquetipo do verdadeiro heroi.
    Não li Italo Calvino, mas tenho aprendido muito por essas
    trocas de comentarios, o q não deixa de ser a vivencia profunda das imagens, leveza, mitos, alguns itens da proposta de Calvino.

  3. Marly at 2009/05/29 21:20 says:

    Realmente, Leda, certas obras literárias atuais, além de não possuirem as virtudes destacadas por I. Calvino, contribuem para um empobrecimento da linguagem e dos leitores. Nelas não encontramos nenhum benefício, apenas somos atingidos em nossa própria subjetividade por uma outra que pode ser até pior que a nossa.

    Mas há certas obras que nos tomam e nos fazem acompanhar a trajetória de seus personagens como se caminhassemos junto com eles, deixando marcas profundas em nossa alma e promovendo uma nova orientação em nossas vidas. Mesmo que elas apresentem uma roupagem de acordo com nossa época, sua dinãmica narrativa revela um poder poético de articulação entre arquétipos, imagens simbólicas e mitos que fertilizam nosso imaginário e nos fazem relembrar uma sabedoria humana e trans-humana ocultas pelo véu do esquecimento.

    A própria palavra “Arte” não nos remeteria a essa idéia de articulação? Arte com maiúscula…

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