Diálogo com o Milenio - sobre a Leveza
“Esta primeira conferencia será dedicada à oposição leveza-peso, e argumentarei a favor da leveza. Não quer dizer que considero menos válidos os argumentos do peso, mas apenas que penso ter mais coisas a dizer sobre a leveza.” p.15

(…) “Foi o que fez Milan Kundera, de maneira luminosa e direta. Seu romance A insustentável leveza do ser é, na realidade uma constatação amarga do Inelutável Peso de Viver: não só da condição de opressão desesperada e all-pervading que tocou por destino ao seu desditoso país, mas de uma condição humana comum também a nós, embora infinitamente mais afortunados. O peso da vida, para Kundera, está em toda forma de opressão; a intrincada rede de constrições públicas e privadas acaba por aprisionar cada existência em suas malhas cada vez mais cerradas. O romance nos mostra como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba bem cedo se revelando de um peso insustentável. Apenas, talvez, a vivacidade e a mobilidade da inteligência escapam à condenação – as qualidades de que se compõe o romance e que pertencem a um universo que não é mais aquele do viver.
Cada vez que o reino humano me parece condenado ao peso, digo para mim mesmo que à maneira de Perseu eu devia voar para outro espaço… Não se trata absolutamente de fuga para o sonho ou o irracional. Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação, que preciso considerar o mundo sobre uma outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controle. As imagens da leveza que busco não devem, em contato com a realidade presente e futura, dissolver-se como sonhos…” p.19
CALVINO, Ítalo – Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
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6 respostas para “ Diálogo com o Milenio - sobre a Leveza ”
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Nesse ultimo final de semana estive num seminário com Leloup e ele tornou a repetir durante todo tema discorrido, sobre a necessidade de deixarmos as coisas mais leves, sem sobrecarrega-las com preconceitos, julgamentos, crenças e interpretações e apenas aceitá-las como elas são e se apresentam a cada momento, simplesmente. “Como a esmeralda é verde!” - disse ele.
Poderemos nos exercitar em olhar para as coisas como elas são e então escolhermos a melhor atitude a ser tomada a cada momento?
Diante de tantas reflexões - poéticas, filosóficas e imagéticas - sobre a Leveza, resgato aqui as palavras de Jean Yves leloup citadas numa postagem anterior:
“Decidir ser feliz,
nada adicionar à infelicidade da humanidade,
nem mesmo uma queixa, um pensamento….
Vontade de não perturbar, de não magoar.
Não é ainda o amor
nem a sabedoria,
é o começo da ética.
Para muitos,
já é o heroísmo…”
Quando o homem caiu ,foi porque ficou mais pesado que a plenitude!
De la pra ca, so temos a densidade de um mundo imperfeito,
onde tentamos reconstruir a ideia de uma perfeição, de uma leveza…que acaba na constatação da “insutentavel leveza do ser”.
..e quando, a insustentavel realidade que nos prendia em seus prazeres e desgostos se descortina em nossa existencia,
brota uma pequena possibilidade de vislumbrar o leve que
jaz adormecido em nosso mais profundo ser.
so quando o peso das tantas vidas em nos relampeja ,
é que por um rapido clarão se ilumina o nosso escuro …
fotografando ,fotoglagrando nossa insustentabilidade de se feliz.
e esse raio luminoso nos conecta aos ceus por acender nossa chama adormecida,,, essa é a levedura da alma.
essa é a leve endura da alma.
(…) Às vezes, o mundo inteiro me parecia transformado em pedra: mais ou menos avançada segundo as pessoas e os lugares, essa lenta petrificação, não poupava nenhum aspecto da vida. Como se ninguém pudesse escapar ao olhar inexorável da Medusa…O único herói capaz de decepar a cabeça da Medusa é Perseu, que voa com sandálias aladas. Perseu, que não volta jamais o olhar para a face da Górgona, mas apenas para a imagem que vê refletida em seu escudo de bronze. Eis que Perseu vem ao meu socorro até mesmo agora, quando já me sentia capturar pela mordaça de pedra – como acontece toda vez que tento uma evocação histórico-autobiográfica.
…Melhor deixar que meu discurso se elabore com as imagens da mitologia. Para decepar a cabeça da Medusa sem se deixar petrificar, Perseu se sustenta sobre o que há de mais leve, as nuvens e o vento, e dirige o olhar para aquilo que só pode se revelar por uma visão indireta, por uma imagem capturada no espelho.” p.15-16
Ítalo Calvino, “Leveza”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990
ah…. você foi, Cris!
é isso que olho lá pros lados do jardim américa e vejo uma iluminação diferente no pôr do sol…
“Vontade de não perturbar, de não magoar”.
vontade de ser vento…
Ao falar da oposição peso/leveza, Calvino também diz: “se a idéia de um mundo constituído de átomos sem peso nos impressiona é porque temos experiência do peso das coisas; assim como não podemos admirar a leveza da linguagem se não soubermos admirar igualmente a linguagem dotada de peso”. Ou seja, mesmo sendo opostos um dos termos não exclui o outro, e é através do conhecimento do peso que podemos admirar a leveza e vice-versa.
Ele fala ainda que “duas vocações opostas se confrontam no campo da literatura através dos séculos: uma tende a fazer da linguagem um elemento sem peso, flutuando sobre as coisas como uma nuvem, ou melhor, como uma tênue pulverulência, ou, melhor ainda, como um campo de impulsos magnéticos; a outra tende a comunicar peso à linguagem, dar-lhe a espessura, a concreção das coisas, dos corpos, das sensações”.
Vejo que a questão é mais de descobrirmos o valor que peso e leveza podem ter, na vida e na literatura: “a literatura como função existencial, a busca da leveza como reação ao peso do viver”. Poderemos, então, ver a possibilidade de um equilíbrio dinâmico entre os dois termos e sair de uma radicalização absoluta de um deles. É “o equilíbrio das forças que permite aos corpos celestes pairar no espaço”.
Calvino também faz uma diferenciação entre leveza e frivolidade (ou leviandade), dizendo: “A leveza para mim está associada à precisão e à determinação, nunca ao que é vago ou aleatório”. E cita Paul Valéry: “É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma”.
Então, é preciso distinguir a leveza adquirida por subtração de peso, por delicadeza, suavidade e agilidade, da leviandade do irrefletido, imprudente, precipitado e sem esforço.
A leveza de que fala Calvino não é um ato inconseqüente, leviano, mas exige um trabalho de força, de sustentação, de flexibilidade para vencer a gravidade do mundo, das relações com os outros, da relação de cada um consigo mesmo.
Ser leve como o pássaro passa um sentido de vencer o peso da gravidade terrestre, de alçar o vôo, direcioná-lo e até mesmo se deixar suavemente levar pelo vento como a pluma, porém sabendo que chegará momento de readquirir o peso necessário para poder pousar. É um movimento que implica uma escolha e que faz a ligação do que é terreno com o que é sutil em nós.
Então, considerando a interdependência leveza / peso e não deixando pender a balança somente para um dos lados, o que se busca é também como se posicionar diante deles – com ou sem leviandade. O que não significa negar ou mascarar o peso da vida, mas reconhecê-lo e escolher agir em direção à leveza; caminho de transformação que não acontece sem uma intenção deliberada e um esforço assumido.
“(…) o salto ágil e imprevisto do poeta-filósofo que sobreleva o peso do mundo, demonstrando que sua gravidade detém o segredo da leveza, enquanto aquela que muitos julgam ser a vitalidade dos tempos, estrepitante e agressiva, espezinhadora e estrondosa, pertence ao reino da morte, como um cemitério de automóveis enferrujados”.