Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo de Maio de 2009

FORMAÇÃO E TRANSDISCIPLINARIDADE

Acaba de ser lançado pela TRIOM o livro Formação e transdisciplinaridade: história de vida profissional e imaginal do Dr. Patrick Paul. Esta obra apóia-se, em grande parte, sobre a pesquisa que foi objeto da tese defendida pelo autor em seu doutorado em Ciências da Educação na Universidade de Tours - França, em 2001, sob orientação de Gaston Pineau.

A questão da formação do sujeito associada à noção de percurso e de graus ontológicos não é nem recente (Platão) nem original (Buber). O interesse desta obra reside no método empregado que primeiramente retoma, por meio de uma história da formação (médica), as principais etapas do curso evolutivo da história das ciências no Ocidente. Mas a esta epistemologia do percurso da formação justapõe-se, por meio da fenomenologia do mundo onírico e de sua exploração (tradicional, psicanalítica, científica), uma «história de vida imaginal» recomposta a partir de um corpus de 750 relatos de sonhos. A interação entre história da formação e história de vida imaginal, correspondendo a um período de cerca de trinta anos, permite estabelecer as relações entre consciente e inconsciente, regimes diurno e noturno, vida existencial e vida interior, a fim de tornar precisas as diferentes etapas e as rupturas cognitivas que operam no processo da formação da pessoa.

Uma epistemologia da complexidade cruzando holismo, dualismo, positivismo, construtivismo, transdisciplinaridade e gnose, articula-se a uma fenomenologia da consciência e dos níveis de realidade da pessoa. Uma modelização do processo da formação finaliza esta abordagem, estabelecendo as relações entre níveis fenomenológicos, graus ontológicos, rupturas paradigmáticas e epistemológicas, cada um destes patamares remetendo a uma lógica diferente. A aplicação desta modelização ao terreno da temporalidade e ao campo das ciências da educação e da formação completa esta abordagem geral, propondo algumas consequências práticas do modelo teórico.

Patrick Paul é Doutor em medicina, doutor em ciências da educação, DEA (master) de ciências em microbiologia, diplomado em antropologia médica, homeopata e acupunturista. É também professor associado em Ciências da Educação na Universidade de Tours e professor de Medicina Tradicional Chinesa na Universidade de Paris XIII e já esteve várias vezes no Brasil a convite da Faculdade de Saúde Pública da USP e de outras instituições.

Foi para mim uma honra, um prazer e um grande desafio traduzir este importante e inédito trabalho. Trata-se de uma obra de referência que certamente contribuirá para as reflexões e práticas transdisciplinares, ampliando o olhar sobre um processo formativo que considera os diferentes níveis do ser (ontologia) e sua associação a diversos graus de conhecimento (epistemologia).

Marly Segreto

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O Mito e a Literatura

Ao tratar da leveza, a primeira das Seis propostas para o próximo milênio, Ítalo Calvino diz ser melhor deixar que seu “discurso se elabore com as imagens da mitologia”, buscando encontrar no mito de Perseu em seu combate com a Medusa uma “alegoria da relação do poeta com o mundo”.

Ortega y Gasset considera o mito como o ponto de partida de toda poesia. E Thomas Mann diz que o mito é um “esquema sem tempo” e que ele é “sem tempo” naquilo em que está sempre presente, como um constante lembrete.

Desse modo, personagens míticas como Perseu, Ulisses e tantos outros, podem ser considerados sempre presentes e são revividos para significar uma situação humana que perdura, independentemente de tempo e lugar.

A palavra mito provém do grego mÿthos, que significa palavra expressa, relato, narração. Como tradição transmitida oralmente, o mito se apresenta na cultura grega antiga como um relato vindo de um tempo que já existiria antes que alguém iniciasse sua narração. “Nesse sentido, o relato mítico não resulta da invenção individual nem da fantasia criadora, mas da transmissão e da memória…”, diz Jean-Pierre Vernant.

É notável o quanto os antigos mitos gregos continuam a alimentar reflexões fundamentais em nossa cultura. Desde a passagem da cultura oral para a cultura escrita, a literatura vem fazendo renascer (atualizando uns ou criando outros) motivos e símbolos que compõem o universo mítico. O texto literário atua como mediador entre a função simbólica e a dimensão mítica da consciência humana.

Segundo Mircea Eliade, “compreender os mitos equivale a reconhecê-los como fenômenos humanos, fenômenos de cultura, criação do espírito – e não como irrupção patológica de instintos, bestialidade ou infantilidade. O mito, oferecendo regras práticas para a orientação do homem, é um ingrediente vital da civilização humana; longe de ser uma fabulação vã, ele é, ao contrário, uma realidade viva, à qual se recorre incessantemente”.

Como diz Calvino, “não devemos ser apressados com os mitos; é melhor deixar que eles se depositem na memória, examinar pacientemente cada detalhe, meditar sobre seu significado…”.

Temos, então, que sair dos quadros habituais do pensamento (escapando do olhar da Medusa?) e, com um olhar indireto, ver o que as imagens revelam a nós e sobre nós.

Perseus shows Andromeda the head of Medusa Sir Edward B - Perseus shows Andromeda the head of Medusa Sir Edward Burne Jones 300508 1

Sir Edward Coley Burne-Jones - Perseu mostra a Andrômeda a cabeça da Medusa.

Marly

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Diálogo com o Milenio - escolhendo a Leveza

“Resta ainda aquele fio que começarei a desenrolar logo ao princípio: a literatura como função existencial: a busca da leveza como reação ao peso de viver… p.39

Ghuga Tavora   A Walk in the Clouds - Ghuga Tavora   A Walk in the Clouds
www.flickr.com/photos/oimaginauta

“Evoquei aqui, o xamã e o herói das fábulas, a privação sofrida que se transforma em leveza e permite voar ao reino em que todas as necessidades serão magicamente recompensadas. Falei de bruxas que voavam usando utensílios domésticos, tão modestos quanto pode ser uma cuba. Mas o herói deste conto de Kafka não parece dotado de poderes xamânicos ou feiticeirescos; nem o reino para além das Montanhas de gelo parece aquele em que a cuba vazia encontrará algo que possa enche-la. Tanto mais que se estivesse cheia não teria conseguido voar.

Assim, a cavalo em nossa cuba, iremos ao encontro do próximo milênio sem esperar encontrar nele nada além daquilo que seremos capazes de levar-lhe. A leveza, por exemplo, cujas virtudes esta conferencia procurou ilustrar.” p.41

Ítalo Calvino, “Leveza”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990

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Diálogo com o Milenio - sob a perspectiva da Arte

Six memos - Leveza - ateliercynthiagaviao.blogspot.com

Exite um conjunto de peças artísticas criadas que representam as seis propostas de Italo Calvino, conjunto que recebeu em 2008 em Curitiba, no 2º Salão Nacional de Cerâmica, uma Menção Honrosa.

Inspirada No Livro “Seis Propostas Para O Próximo Milênio”, A artista Cynthia Gavião trabalhou em paperclay os temas : rapidez, visibilidade, consistência, multiplicidade, leveza e precisão. Diz ela: _ “Logo que li o livro fiz a relação com as qualidades que encontro neste tipo de massa…”

Para saber mais sobre esse trabalho e conhecer as peças premiadas acesse ateliercynthiagaviao.blogspot.com/ e localize ITALO CALVINO, SALÃO NACIONAL DE CERÂMICA, SEIS PROPOSTAS PARA O PRÓXIMO MILÊNIO

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Diálogo com o Milenio - sobre a Leveza

“Esta primeira conferencia será dedicada à oposição leveza-peso, e argumentarei a favor da leveza. Não quer dizer que considero menos válidos os argumentos do peso, mas apenas que penso ter mais coisas a dizer sobre a leveza.” p.15

Habitaciones junto al mar 1951  Edward Hopper - Habitaciones junto al mar 1951  Edward Hopper


(…) “Foi o que fez Milan Kundera, de maneira luminosa e direta. Seu romance A insustentável leveza do ser é, na realidade uma constatação amarga do Inelutável Peso de Viver: não só da condição de opressão desesperada e all-pervading que tocou por destino ao seu desditoso país, mas de uma condição humana comum também a nós, embora infinitamente mais afortunados. O peso da vida, para Kundera, está em toda forma de opressão; a intrincada rede de constrições públicas e privadas acaba por aprisionar cada existência em suas malhas cada vez mais cerradas. O romance nos mostra como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba bem cedo se revelando de um peso insustentável. Apenas, talvez, a vivacidade e a mobilidade da inteligência escapam à condenação – as qualidades de que se compõe o romance e que pertencem a um universo que não é mais aquele do viver.

Cada vez que o reino humano me parece condenado ao peso, digo para mim mesmo que à maneira de Perseu eu devia voar para outro espaço… Não se trata absolutamente de fuga para o sonho ou o irracional. Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação, que preciso considerar o mundo sobre uma outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controle. As imagens da leveza que busco não devem, em contato com a realidade presente e futura, dissolver-se como sonhos…” p.19

CALVINO, Ítalo – Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

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Imagens de leveza…

Juan Miro   Dancer 1 - Juan Miro   Dancer 1
…na dança de Juan Miró…
Alexandra Kuechenberg. bricked thread askew2 1 - Alexandra Kuechenberg. bricked thread askew2 1
…no vestígio na parede de Alexandra Kuechenberg…
Jen Stark. Piece of an infinite wholeROLL - Jen Stark. Piece of an infinite wholeROLL
…nos papéis coloridos de Jen Stark…
Paul Friedlander - Paul Friedlander
…nas luzes de Paul Friedlander…
Peter Crane. Kew Gardens. Transpar  ncia - Peter Crane. Kew Gardens. Transpar  ncia
…nas transparências de Peter Crane…
Quinn. Planet. Chatsworth House - Quinn. Planet. Chatsworth House
…no baby Planet de Quinn…
Sue Blackwell - Sue Blackwell
…no livro de Sue Blackwell.

Marly

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Diálogo com o Milenio - prenunciando a Leveza…

1159605 flower series 1 - 1159605 flower series 1

Uma sépala, uma pétala, um espinho
Numa simples manhã de verão…
Um frasco de Orvalho…uma Abelha ou duas…
Uma Brisa…um bulício nas árvores…
E eis-me Rosa!

Emily Dickinson, poeta norte-americana (1830-1886)

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Diálogo com o Milênio - Convite

Estamos convidando você para um novo diálogo com seu próprio processo de Autoformação - onde aprendemos conosco, com os outros e com o entorno. Todos juntos em contínua co-formação! Ser…conviver…interagir…transformar…vir a ser.

Desta vez focando Italo Calvino e sua obra póstuma ” Seis propostas para o próximo milênio”, trabalho a que o autor referia-se como Lições americanas, e que acabou por transformar-se em subtítulo da publicação póstuma.

www.gef.free.fr/pinacograms.html - Calvino

Convidado pela Universidade de Harvard, em 1984, para oferecer um ciclo de seis conferências, faleceu em 1985, em Siena, na Itália. Deixou prontos os textos das cinco primeiras: e a que seria a última, Consistência, Calvino havia deixado para preparar em Harvard. Ficou o legado literário de uma dos maiores escritores do século XX, uma referência nos caminhos da literatura do terceiro milênio.

Não é um diálogo de especialistas em literatura, mas de leitores de sua própria arte & vida, como cada um de nós:

“Em meio a cada vez mais aguda crise contemporânea da linguagem, o grande escritor italiano identifica a seis qualidades que apenas a literatura pode salvar – Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade, Multiplicidade, Consistência - , virtudes a nortear não apenas as atividades dos escritores, mas cada um dos gestos de nossa existência.” (contracapa da obra: CALVINO, Ítalo – Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.).

Obras diversas de Calvino ou de outros autores de qualquer área do conhecimento poderão compor e enriquecer esse painel reflexivo sobre a vida no milênio em que vivemos.

Sejam todos bem-vindos, companheiros de Aprendizagem!

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