Como foi dito em Sobre Ser/fazer uma comunidade, o Diálogo com Clarice revelou-se uma ação formativa e uma aprendizagem conjunta, o que tem sido a prática na Companhia de Aprendizagem.
Em nosso modo de ver, a formação é um processo contínuo que se dá ao longo da vida, não estando restrita a um espaço/tempo determinado institucionalmente (escola, família, etc.). Ela envolve um processo vivido pelo ser enquanto ser, uma forma pessoal que vai sendo configurada nesse processo e a maneira como esta forma é construída. Nesse sentido, o ato de se formar (autoformação) assume uma dimensão mais ampla, pois diz respeito a uma diversidade de interações e transações (consigo mesmo, com os outros e com o meio físico/cultural) e às possibilidades de transformação delas decorrentes.
Estamos em formação todo o tempo, em todos os lugares e nas diferentes relações que estabelecemos com os outros. É um processo que está acontecendo conosco, que está sendo vivenciado, quer tenhamos consciência dele ou não. Mas podemos nos apropriar do poder de nos formar, podemos caminhar rumo a nós mesmos e, tomando consciência da forma adquirida, ir além e através dela em direção ao que podemos vir a ser. A autoformação é também uma autocriação.
Podemos olhar para nossas vivências e assumi-las como experiências formadoras ao fazer um trabalho reflexivo sobre o que se passou conosco e sobre o que foi observado, percebido e sentido. Por meio do retorno reflexivo nos apropriamos da experiência vivida, do que percebemos e aprendemos com ela, e nos apropriamos de nós mesmos. E essas experiências formadoras podem ser tanto as que alimentam nossa autoconfiança como as que alimentam nossas questões, dúvidas e incertezas. Certas aprendizagens podem pôr em questão os referenciais e valorizações que vinham orientando nossa vida, nos despertando para uma necessidade de transformação.
Neste retorno reflexivo sobre a experiência no Diálogo com Clarice, convidamos vocês para uma leitura da leitura, ou seja, para uma leitura dos comentários pessoais feitos a partir da leitura dos temas postados e do livro de Clarice como um todo, seguida de uma reflexão a ser partilhada com todos.
A literatura (e a obra de Clarice (*) em especial) assume aqui um papel formativo por abordar questões humanas e existenciais que religam os seres entre si.
São questões nas quais nos reconhecemos, mas que também nos indicam que há uma fronteira entre o conhecido e o desconhecido, trazendo uma interrogação permanente sobre o que temos sido, o que não somos mais e o que poderemos vir a ser.
Na finalização deste trabalho, temos a oportunidade de fazer desta experiência uma aprendizagem de reciprocidade. Ao expressarmos nossas reflexões estaremos aprendendo uns com os outros e resgatando o prazer de Ser e de aprender em comunidade.
Aos interessados, sugerimos a leitura de dois textos que nos apoiaram neste trabalho:
Geysa Silva – Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (em Resumos)
Amariles Guimarães Hill – A experiência de existir narrando (em Artigos)
(*) Detalhe do retrato de Clarice Lispector pintado por De Chirico.
Marly
Querida Cris,
Agradeço pela oportunidade de entrar neste mundo tão lindo da aprendizagem, da experiência, da troca de sensibilidades.
Fiz poucos comentários, mas participei silenciosamente e aprendi MUITO! Acredito que o motivo de ter participado em silêncio seja pelo fato de que eu estava acostumada a ler um texto de uma forma mais acadêmica, então naveguei e refleti cada comentário, e APRENDI a ler mais profundamente.
Agora, cada vez que leio um texto literário, tenho outros olhos; e o texto fala comigo, e eu dialogo com o texto de uma forma muito especial!
Um beijo a todos!
que lindo esse seu trabalho, Cris!
eu que agradeço por ter me enfiado no meio disso e me dado a oportunidade de saborear Clarice….
gosto muito dela desde sempre….
engraçado ler meus comentários.engraçado estar só no primeiro degrau e já me sentir tão autorizada a ousar dizer que CRESCI!!!
beijo grande
Dialogar com Clarice e com os caminhantes que por aqui passaram mostrou a delicadeza de se encontrar em companhia da poesia, do encamento das emoções e da beleza do diálogo nascido de nosso eu mais profundo.
Cris, sua intuição favorecendo esse momento nasceu de sua sensibilidade e acolhimento.
Agradeço a todos de poder compartilhar esse momento.
Aceitar o convite para participar do Diálogo com Clarice também significou para mim aceitar a aprendizagem que estava sendo proposta. E me lembrei de Drummond: “Viver não. Viver sim. Como viver sem conviver na praça dos convites?”.
Foi impossível ler o livro e os temas postados sem entrar em ressonância com o que lia e sem perceber a sua repercussão em mim. Mérito da Arte de Clarice, certamente, mas também das contribuições de cada uma, que me permitiram ver o não visto e sentir o que falava particularmente a mim e o que falava a todas nós como mulheres e como seres humanos.
Ao ler meus comentários em sequência, pude resgatar minha trajetória e me interrogar sobre minhas escolhas: por que escolhi comentar isso e não aquilo? Essa leitura contribuiu para uma compreensão do que estava sendo mais significativo para mim no momento e revelou os pontos cegos, o que ainda pede um trabalho de compreensão.
Agradeço à Cris pela iniciativa e por sua atenção cuidadosa e à todas vcs que foram nossas companheiras nessa aprendizagem.
Foi uma emoção “extra-ordinária ” ler a obra de Clarice, anotar e digitar os trechos que ressoaram em mim – dos mais longos a uma única frase! Depois veio aquele misto de desejo e descoberta, deslumbramento e vontade de compartilhar emoções, percepções, encantos e temores, o não saber… puro prazer! Fui para o blog e convidei nominalmente algumas pessoas que eu sabia gostarem de leitura e algumas e quantas outras responderam; vieram, cada uma com suas contradições, desejos, dúvidas, infinita riqueza potencial e se derramaram em gotas tímidas ou águas profundas e caudalosas. E começamos a tecer, juntas.Tecemos um caminho com vários motivos – cada postagem tinha seu tom e matiz.
Relendo agora minhas próprias postagens, posso relembrar o fluxo de cada pensamento, músicas, argumento e palavras cuidadosamente escolhidas ou simplesmente brotadas, para não romper o ritmo do momento. Para mim foi um aprofundamento – um escorregão em algumas poças de lama pessoais que eu evitava, e um mergulho profundo em alguns rincões cristalinos não vislumbrados – experenciar o paradoxo. E sobreviver. E entender mais claramente as coisas em mim mesma. E experimentar uma alegria prazeirosa e doce. E acreditar mais.
Adorei perceber que o tempo tem me feito uma pessoa mais leve e bem humorada, que fui capaz também de rir e de cantar enquanto com Clarice atravessava alguma dor.
“De estar viva – sentiu ela – teria de agora em diante, que fazer o seu motivo e tema.” Eu também! Gratidão a todos.