Dialogo com Clarice - [O Encontro]
“Era noite cada vez mais escura e chovia muito. Embora sem vê-lo, reconheceu pela sua respiração pausada que ele dormia.

Ficou de olhos abertos no escuro e cada vez mais o escuro se revelava a ela como um denso prazer compacto, quase irreconhecível como prazer, se fosse comparado com o que tivera com Ulisses. Ele estar dormindo a seu lado deixava-a a um tempo sozinha e integrada. Ela não queria nada senão aquilo mesmo que lhe acontecia: ser uma mulher no escuro ao lado de um homem que dormia. Pensou por um instante se a morte interferiria no pesado prazer de estar viva. E a resposta foi que nem a idéia da morte conseguia perturbar o indelimitado campo escuro onde tudo palpita grosso, pesado e feliz. A morte perdera a glória.
Lembrou-se de como era antes destes momentos de agora. Ela era antes uma mulher que procurava um modo, uma forma. E agora tinha o que na verdade era tão mais perfeito: era a grande liberdade de não ter modos nem formas.” p.148-149
… _ Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais ultima que se pode dar de si, disse Ulisses. “
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.155
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4 respostas para “ Dialogo com Clarice - [O Encontro] ”
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“Naquela hora da noite, conhecia esse grande susto de estar viva, tendo como único amparo apenas o desamparo de estar viva. A vida era tão forte que não se ampara no pequeno desemparo. De estar viva – sentiu ela – teria de agora em diante, que fazer o seu motivo e tema. “ p.140
Eis aí a revelação, que nos permitirá a gratuidade da doação da própria vida em cada instante vivido no eterno Agora!
..um amor que consite na mutua proteção,limitação e saudação de duas solidões” ( Riner Maria Rilke)
doar nossa solidão? isso sim é aprendizagem… pra poucos, bem poucos…
“Ela era antes uma mulher que procurava um modo, uma forma. E agora tinha o que na verdade era tão mais perfeito: era a grande liberdade de não ter modos nem formas.”
Quantas vezes nos debatemos com essa busca de um modo, de uma forma de ser, com a crença de que devemos nos moldar a uma imagem imposta socialmente para sermos aceitos e amados. E, para nos conformarmos, muitas vezes nos deformamos.
O que poderia ser essa grande liberdade de não ter modos ou formas? Essa aprendizagem que nos conduz ao caminho da aceitação de quem e do que estamos sendo em cada momento, e que nos revela a nós mesmos a medida que caminhamos, pode nos libertar das formas fixas impostas e assumidas, abrindo a possibilidade de nos reconhecermos em contínua transformação.