Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo de 20 de Março de 2009

Dialogo com Clarice - [O Encontro]


“Era noite cada vez mais escura e chovia muito. Embora sem vê-lo, reconheceu pela sua respiração pausada que ele dormia.

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Ficou de olhos abertos no escuro e cada vez mais o escuro se revelava a ela como um denso prazer compacto, quase irreconhecível como prazer, se fosse comparado com o que tivera com Ulisses. Ele estar dormindo a seu lado deixava-a a um tempo sozinha e integrada. Ela não queria nada senão aquilo mesmo que lhe acontecia: ser uma mulher no escuro ao lado de um homem que dormia. Pensou por um instante se a morte interferiria no pesado prazer de estar viva. E a resposta foi que nem a idéia da morte conseguia perturbar o indelimitado campo escuro onde tudo palpita grosso, pesado e feliz. A morte perdera a glória.

Lembrou-se de como era antes destes momentos de agora. Ela era antes uma mulher que procurava um modo, uma forma. E agora tinha o que na verdade era tão mais perfeito: era a grande liberdade de não ter modos nem formas.” p.148-149

… _ Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais ultima que se pode dar de si, disse Ulisses. “

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.155

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