Diálogo com Clarice - [Estado de Graça]
“Foi no dia seguinte que entrando em casa viu a maçã solta sobre a mesa….Depois de examiná-la, de revirá-la, de ver como nunca vira a sua redondez e sua cor escarlate – então devagar, deu-lhe uma mordida.
E oh Deus, como se fosse a maçã proibida do paraíso, mas que ela agora já conhecesse o bem, e não só o mal como antes. Ao contrário de Eva, ao morder a maçã entrava no paraíso.
Só deu uma mordida e depositou a maçã na mesa. Porque alguma coisa desconhecida estava suavemente acontecendo. Era o começo – de um estado de graça.

Só quem já tivesse estado em graça , poderia reconhecer o que ela sentia. Não se tratava de uma inspiração que era uma graça especial que tantas vezes acontecia aos que lidavam com arte. O estado de graça em que estava não era usado para nada. Era como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existia.
Neste estado, além da tranqüila felicidade que se irradiava das pessoas lembradas e de coisas, havia uma lucidez que Lóri só chamava de leve porque na graça, tudo era tão, tão leve. Era uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Que não lhe perguntassem o que, pois só poderia responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E havia uma bem-aventurança física que a nada se comparava. O corpo se transformava num dom. E ela sentia que era um dom porque estava experimentando, de uma fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça, via-se a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo aliás, ganhava uma espécie de nimbo que não era imaginário: vinha do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passava-se a sentir que tudo que existe – pessoa ou coisa – respirava e exalava uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Esta energia é a maior verdade do mundo e é impalpável.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.131-132
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5 respostas para “ Diálogo com Clarice - [Estado de Graça] ”
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“Porque no Impossível é que está a realidade” p.106
“Também era bom que não viesse tantas vezes quantas queria: porque ela poderia se habituar à felicidade. Sim, porque em estado de graça se era muito feliz. E habituar-se à felicidade seria um perigo social. Ficaríamos mais egoístas, porque as pessoas felizes o eram, menos sensíveis à dor humana, não sentiríamos a necessidade de procurar ajudar os que precisavam, tudo por termos na graça a compreensão e o resumo da vida.” P.133
e ser feliz é simples e tem sabor de fruta mordida!
bingo!
Graça, palavra com tantos significados!
Há coisas que vêm de graça, gratuitamente, sem motivo aparente, como benefício, dádiva, sem que tenhamos que necessariamente oferecer algo em troca, apenas recebemos. Mas nem sempre valorizamos aquilo que vem de graça. Por que será? E o que fazemos com aquilo que recebemos?
Em outros tempos, ao nos perguntarem: “Qual é a sua graça”, dizíamos nosso nome. Nossa graça era o nome que nos identificava.
Mas nossa graça também pode ser o estilo, a elegância e beleza de nossa presença e expressão: formas, palavras, gestos, atitudes, comportamentos. Podemos encontrar em nós e perceber nos outros e nas coisas uma graciosidade natural, “uma espécie de finíssimo resplendor de energia”.
E podemos também achar graça, ver como as coisas ficam engraçadas quando nos levamos exageradamente a sério. Rir de nós mesmos pode ser um bom remédio em certos momentos.
Conceder a graça traz o sentido de clemência com um ato condenável, por transgredir as leis dos homens. Mas também podemos ir contra uma Lei maior. E na oração do coração “kyrie eleison” - Senhor, tende piedade de nós, é uma Graça misericordiosa que é pedida. Somos imperfeitos… Mas será que basta pedir para que a graça seja concedida? Ou depende do que e de como pedimos? As indicações “Pedi, e recebereis” e “é dando que se recebe” são muitas vezes mal compreendidas e utilizadas. Qual é o sentido delas para nós?
Há também momentos especiais em que uma Graça nos é concedida, e é como se uma porta se abrisse e nos fosse permitindo ver e sentir, por uma fração de segundos, que estamos unidos a um Todo maior. Mas a porta rapidamente se fecha, deixando apenas uma vaga lembrança. É como se fosse feito um convite para um trabalho de unificação interior, de integração do que em nós é fragmentado, para que então, quem sabe um dia, a porta possa se abrir novamente e a mão da Graça se estenda e nos conduza a uma dimensão em que todos somos Um.
Acompanhando a Marly, não pude deixar de me lembrar de um ensinamento que muitas vezes me socorreu, e mesmo eu não tendo neles recebido a Graça, a simples esperança dela, fortalecia: “A Tua Graça me basta.”