Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo de 10 de Março de 2009

Diálogo com Clarice - [Estado de Graça]

“Foi no dia seguinte que entrando em casa viu a maçã solta sobre a mesa….Depois de examiná-la, de revirá-la, de ver como nunca vira a sua redondez e sua cor escarlate – então devagar, deu-lhe uma mordida.
E oh Deus, como se fosse a maçã proibida do paraíso, mas que ela agora já conhecesse o bem, e não só o mal como antes. Ao contrário de Eva, ao morder a maçã entrava no paraíso.
Só deu uma mordida e depositou a maçã na mesa. Porque alguma coisa desconhecida estava suavemente acontecendo. Era o começo – de um estado de graça.

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Só quem já tivesse estado em graça , poderia reconhecer o que ela sentia. Não se tratava de uma inspiração que era uma graça especial que tantas vezes acontecia aos que lidavam com arte. O estado de graça em que estava não era usado para nada. Era como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existia.

Neste estado, além da tranqüila felicidade que se irradiava das pessoas lembradas e de coisas, havia uma lucidez que Lóri só chamava de leve porque na graça, tudo era tão, tão leve. Era uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Que não lhe perguntassem o que, pois só poderia responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.

E havia uma bem-aventurança física que a nada se comparava. O corpo se transformava num dom. E ela sentia que era um dom porque estava experimentando, de uma fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.

No estado de graça, via-se a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo aliás, ganhava uma espécie de nimbo que não era imaginário: vinha do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passava-se a sentir que tudo que existe – pessoa ou coisa – respirava e exalava uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Esta energia é a maior verdade do mundo e é impalpável.”

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.131-132

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