Blog da Companhia de Aprendizagem

Diálogo com Clarice - [sobre Iniciação]

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“Para o mundo de perfumes, Lóri já acordara. Quando voltava da rua de noite, passava pela casa vizinha cheia de dama-da-noite, que lembrava o jasmim, só que mais forte. Ela aspirava o cheiro da dama-da-noite que era noturno. E o perfume parecia mata-la lentamente. Lutava contra, pois sentia que o perfume era mais forte que ela, e que poderia de algum modo morrer dele. Agora é que ela notava tudo isso. Era uma iniciada no mundo. Que lhe parecia um milagre.

… Milagres, não. Mas as coincidências. Vivia de coincidências, vivia de linhas que incidiam e se cruzavam e, no cruzamento, formavam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que era mais feito de segredo. Mal falasse das coincidências, e já estaria falando em nada.
Mas possuía um milagre, sim. O milagre das folhas. Estava andando na rua e do vento lhe caíra exatamente nos cabelos: a incidência de linhas de milhões de linhas transformada em uma única que caía, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-lo a ela. Isso lhe acontecia tantas vezes que passou a se considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tirara a folha dos cabelos e guardara-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontrara entre os mil objetos que sempre carregava a folha seca, engelhada e morta. Jogara-a fora; não lhe interessava o fetiche morto como lembrança. E também porque sabia que novas folhas iriam coincidir com ela. Um dia uma folha que caíra batera-lhe nos cílios.

Achou então Deus de uma grande delicadeza. “

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.110-111



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5 respostas para “ Diálogo com Clarice - [sobre Iniciação] ”

  1. TCris Março 6th, 2009 10:12

    “Lori, você está se acordando pela curiosidade, aquela que empurra pelos caminhos da vida real. Mas não tenha medo da desarticulação que virá. Essa desarticulação é necessária para que se veja aquilo que, se fosse articulado e harmonioso, não seria visto, seria tomado como óbvio. Na desarticulação haverá um choque entre você e a realidade, é preferível estar preparada para isso, Lóri, a verdade é que estou contando a você parte do meu caminho já percorrido.” P.97

  2. TCris Março 8th, 2009 11:39

    Quem já não aspirou profundamente o perfume noturno de uma dama-da-noite, no silencio de uma brisa de verão? Um gesto tão simples, dado como banal e muitas vezes desapercebdo pode nos conduzir a um momento profundo de conexão com a Vida que nos habita: perfume, brisa, nós que damos sentido a esse encontro.

    Como dizem sobre a prosa de Clarice: “Nos romances de Clarice o insólito está presente a todo momento. Não é surpresa, gratuidade ou magia. É algo sabido mas desconhecido; como certeza cega de que as coisas possuem existência muito mais rica do que essa atingível pelos homens no dia-a-dia. O insólito no discurso clariceano busca liberar o ser das coisas, aprisionado pelo nosso hábito de receber o mundo pronto sem interrogá-lo.”

    EXPERIÊNCIA DE EXISTIR NARRANDO
    Amariles Guimarães Hill – www.clarice-lispector.cjb.net

  3. Lana Março 9th, 2009 16:17

    ontem mesmo eu senti esse perfume.
    inconfundível.

    aliás, minha memória olfativa é senhora!

    quanto a delicadeza de Deus, aleluia né?

  4. Marly Março 10th, 2009 23:07

    Depois de terminar a releitura e revisão de um artigo que escrevi para um livro da Companhia, foi um bálsamo resgatar a memória desse misterioso aroma da Dama da Noite, tantas vezes encontrado. Não que o trabalho tenha sido desagradável, muito pelo contrário, pois ele ajudou a ampliar minha compreensão sobre as Histórias de Vida e foi permeado pelo cruzamento de visões, palavras e vivências que têm alimentado minhas interrogações sobre meu trajeto de vida, meu trabalho pessoal e na Companhia.
    Mas essa possibilidade de transitar por diferentes linguagens, de resgatar sensações, sentimentos que me tomam e me fazem dizer: estou viva!, esse universo das flores com seus perfumes, das folhas que vêm às nossas mãos num bailado sob o som do vento… só posso ficar agradecida. Mesmo que o aroma da Dama da Noite traga algo insuspeitado, indefinível, quase me despertando para esse algo… que escapa, mas deixa o seu rastro.
    Sim, que delicadeza!

  5. TCris Março 12th, 2009 12:22

    “Agora é que ela notava tudo isso. Era uma iniciada no mundo. Que lhe parecia um milagre.”

    O momento do encontro - único e sempre novo a cada vez que acontece. O milagre do tornar conhecido o que nos é desconhecido. E sempre tudo esteve aí, antes de cada um de nós. Quem então no estava presente a cada possibilidade de encontro? - pergunta uma voz em mim.

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