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Diálogo com Clarice - [ Sobre o desejo e o saber de si ]

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[Lori e Ulisses] “Ele ,o homem, se ocupava atiçando o fogo. Ela nem se lembrava de fazer o mesmo: não era o seu papel, pois tinha o seu homem para fazer isso. Não sendo donzela, que o homem então cumprisse a sua missão.
_ Olhe aquela acha, ela ainda não pegou…
E ele, antes de ela acabar a frase, por si próprio já notara a acha apagada, homem seu que ele era, e já estava atiçando-o com o ferro. Não a comando seu que era mulher de um homem e que perderia o seu estado se lhe desse uma ordem. Com a mão direita ele segura o ferro que fazia as flamas crescerem. A mão esquerda, a livre, estava ao alcance dela. Lori sabia que podia toma-la, que ele não se recusaria; mas não a tomava, pois queria que as coisas “acontecessem” e não que ela as provocasse. Ela conhecia o mundo dos que estão tão sofridamente à cata de prazeres e que não sabiam esperar que eles viessem sózinhos…. Porque nela a busca do prazer, nas vezes que tentara, lhe tinha sido água ruim: colava a boca e sentia a boca enferrujada, de onde escorriam dois ou três pingos de água amornada: era a água seca. Não, havia ela pensado, antes o sofrimento legítimo que o prazer forçado. Queria a mão esquerda de Ulisses e sabia que queria, mas nada fez, pois estava usufruindo exatamente do que precisava: poder ter essa mão se estendesse a sua. “

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p. 104



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10 respostas para “ Diálogo com Clarice - [ Sobre o desejo e o saber de si ] ”

  1. TCris Março 3rd, 2009 11:19

    “E ele, antes de ela acabar a frase, por si próprio já notara a acha apagada, homem seu que ele era, e já estava atiçando-o com o ferro.”

    Achei de uma extrema ternura e delicadeza, uma personagem que mergulha em abismos tão profundos de si mesma, perceber o movimento complementar do outro, como necessário para reconhecer seu próprio lugar. No tempo de uma chama, um encontro espontâneo e perfeito - um movimento de convergencia de dois para criar o um, que não é uma redução, mas o novo, o inédito, que traz em si a alegria de perceber-se a si mesmo e o outro em construção. Belíssimo!

  2. Lana Março 3rd, 2009 11:44

    “… pois queria que as coisas “acontecessem” e não que ela as provocasse”.

    como saber a medida entre provocar ou deixar as coisas acontecerem?

    intuição!

    essa palavra, esse sentimento, essa postura, essa atitude tem feito parte dos meus dias…

  3. TCris Março 3rd, 2009 12:25

    Lana:
    Da percepção daquilo que não é (”Porque nela a busca do prazer, nas vezes que tentara, lhe tinha sido água ruim: colava a boca e sentia a boca enferrujada, de onde escorriam dois ou três pingos de água amornada: era a água seca.”)pode apresentar-se aquilo que é (Lori sabia que podia toma-la, que ele não se recusaria; mas não a tomava, pois queria que as coisas “acontecessem” e não que ela as provocasse.)
    A intuição entendida como a atitude observadoradora daquilo que é, naturalmente, nos leva a uma “aprendizagem” de como fluir com o que se apresenta. Até que um dia, apenas nos tornamos aquilo que vivemos.
    Ardua caminhada, porém libertadora. Em marcha!!!

    beijão
    TCris

  4. leda Março 3rd, 2009 13:32

    Clima emocional, reação a linguagem dos afetos…
    mover-se dentro dessa energia….coisa desgastante, aprisionante, manipulada por falsa percepção do outro.
    não podemos nos relacionar dentro de um eterno romancear,pois,
    criamos codigos, valores, sensacões, afetos, desafetos , num jogo sem fim de uma relação saudavel!!!
    Máscaras, sedução, esperteza para intelegir o melhor momento
    da conquista….coisas de sedução humana, e falsa delicadeza.
    Dentro de um romance, escrito, descrito, mostra o flagrante
    que a alma humana se espõe,,,,e depoe sua infamia, infantilidade, incapacidade de SER….
    Mexer com o fogo, saber manter uma chama acesa…é muito mais ….

  5. TCris Março 3rd, 2009 14:05

    ” nada hay verdad ni mentira, todo es según el color del cristal com qui se mira ”
    (R. Campoamor - Obras poéticas completas)

  6. luzia Março 3rd, 2009 14:25

    “…Queria a mão esquerda de Ulisses e sabia que queria, mas nada fez, pois estava usufruindo exatamente do que precisava:poder ter essa mão se estendesse a sua…..”

    O outro está em mim e eu o contenho, vivencio sua presença em meu corpo e em minha alma, assim como um desejo ou apenas uma sensação de ser preenchido. É o instante que sou e sei que o outro é comigo., por que não nos permitirmos vivenciar esses momentos?!….Em Lori, Clarice nos revela a potencialidade do ser em confrontar-se com todas suas faces sem ficar paralizado diante de uma identificação.

  7. Marly Março 3rd, 2009 15:08

    Eu fiquei lembrando de uma outra possível leitura que foi sugerida em comentários anteriores: Lori e Ulisses como as contrapartes feminina e masculina de um mesmo ser.
    E na relação homem-mulher essas contrapartes também estão atuando através do animus (alma animante - atiça o fogo) e da anima (alma animada - usufrui do fogo e avisa quando ele não pegou).
    Ele, com a mão direita (ativa) segura o ferro que faz as chamas crescerem, e a mão direita está livre (receptiva).
    Ela, numa posição de receptividade escolhida, pois necessária em seu momento, mas sabendo que poderia tomar a iniciativa se desejasse (e o faz na imaginação).
    Parece que cada um aceita e ocupa o seu lugar próprio na interação, encontrando-se consigo mesmo diante do outro.
    Além disso, parece que os dois não estão em busca de um prazer qualquer, fortuito ou forçado, mas de um prazer que vem do encontro, de uma comunhão - comum união.

  8. Isabel Março 5th, 2009 13:32

    “Ela conhecia O mundo dos que estão tão sofridamente à cata de prazeres e que não sabiam esperar que eles viessem sòzinhos”

    Na situação vivida por Lori, encontramos os “por quê” do impulso causal (prova de prazer e força) como critério de verdade. O impulso causal é portanto condicionado pelo medo (medo de regeição, entre outros)
    O facto de Lori ter vivenciado antes algo semelhante e que estava inscrito em suas recordações, é a primeira consequência desta necessidade.
    Vencer esse receio, esperar o momento certo para o encontro, trará um prazer consentido de maior comunhão.

  9. leda Março 5th, 2009 21:21

    O ser humano conseguiu sofisticar tanto a maldade, como
    o prazer……..
    Refinou os prazeres do intelecto, dos encontros parecidos
    com afetos, elaborou tão perfeitamente a copia do amor,
    do encontro,
    que quase nos convence que é assim…

  10. TCris Março 6th, 2009 10:09

    É ilusório pensar que vamos atravessar o caminho do encontro através do outro, assim como também não conseguiremos sem o outro. Há aí uma justa medida que nos cabe encontrar, como coloca a Marly: “Parece que cada um aceita e ocupa o seu lugar próprio na interação, encontrando-se consigo mesmo diante do outro. ”

    E qualquer que seja a nossa posição, sempre podemos nos socorrer: “De novo Ulisses a ajudara, sobretudo com o tom de sua voz que era muito rica em inflexões. E Lóri pensou que talvez essa fosse uma das experiências humanas e animais mais importantes: a de pedir mudamente socorro e mudamente esse socorro ser dado. Pois apesar das palavras trocadas, fora mudamente que ele a havia ajudado.” p.121

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