Date: 2009.02.28 | Category: Agenciamento, Diálogos | Tags:

1000 imagens   Jo  o Castela Cravo 1

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma cousa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

(Álvaro de Campos)

A palavra, a locução só é possível a partir de um lócus que lhe dá suporte, de um centro de emissão e de ressonância, diz Gerard de Sorval (La Marelle, ou les sept marches du paradis). Trata-se de encontrar um lugar no interior da alma a partir do qual se realiza um estado primordial, de participar de uma luz interior que não é o reflexo de uma luz do mundo exterior.

E na linguagem poética, a imagem isolada, a frase que a desenvolve, o verso ou o que é irradiado por ele formam espaços de linguagem, diz G. Bachelard (A poética do espaço).

Como é que o aparecimento de uma imagem poética singular pode atuar em outras almas, em outros corações, apesar de todas as barreiras do senso comum, de todos os pensamentos “sensatos”, felizes em sua imobilidade?

A poesia é uma alma inaugurando uma forma e fazendo dela a sua morada.

O leitor não deve encarar a imagem poética como um objeto, muito menos como um substituto do objeto, mas captar sua realidade específica. O poeta fala no limiar do ser. A imagem poética emerge na consciência como um produto direto do coração da alma, do ser do homem tomado em sua atualidade. E ela terá uma sonoridade de ser quando sentirmos sua repercussão.

Bachelard nos convida a ultrapassar as ressonâncias sentimentais com que recebemos a obra de arte. “As ressonâncias dispersam-se nos diferentes planos da nossa vida no mundo; a repercussão convida-nos a um aprofundamento da nossa própria existência. Na ressonância ouvimos o poema; na repercussão o falamos, ele é nosso. A repercussão opera uma inversão do ser. Parece que o ser do poeta é o nosso ser. A multiplicidade das ressonâncias sai então da unidade de ser da repercussão. Dito de maneira mais simples: trata-se aqui de uma impressão bastante conhecida de todo leitor apaixonado por poemas: o poema nos toma por inteiro”.

O par ressonância-repercussão reanima profundezas em nosso ser, fazendo com que um poder poético se erga em nós. É depois da repercussão que podemos experimentar ressonâncias sentimentais, recordações do nosso passado, pois a imagem atingiu as profundezas antes de emocionar a superfície. “E isso é verdade numa simples experiência de leitura. Essa imagem que a leitura do poema nos oferece torna-se realmente nossa. Enraíza-se em nós mesmos. Nós a recebemos, mas sentimos a impressão de que teríamos podido criá-la, de que deveríamos tê-la criado. A imagem torna-se um ser novo da nossa linguagem, nos expressa tornando-nos aquilo que ela expressa – noutras palavras, ela é ao mesmo tempo um devir de expressão e um devir do nosso ser. Aqui, a expressão cria o ser”.

Marly

3 responses to “Repercussão e ressonâncias”

  1. leda at 2009/02/28 09:27 says:

    QUE PROFUNDIDADE!!!!

    O som que somos e a afinação de nossa alma com
    a verdade mais intima em nós, gera a ressonancia
    em tudo .
    Tudo retine em nosso ser, e sonorizamos a ira, o
    ciume, os deleites…
    So quando , numa alquimia interior, silenciamos
    essa ressonancia mortal…e produzimos o som silencio
    é que conversamos com Deus …
    e assim converso sem verso contigo.

  2. TCris at 2009/02/28 12:32 says:

    “E isso é verdade numa simples experiência de leitura. Essa imagem que a leitura do poema nos oferece torna-se realmente nossa. Enraíza-se em nós mesmos. Nós a recebemos, mas sentimos a impressão de que teríamos podido criá-la, de que deveríamos tê-la criado. A imagem torna-se um ser novo da nossa linguagem, nos expressa tornando-nos aquilo que ela expressa.”
    Marly, gratíssima por essa importante pesquisa e contribuição.Usamos as palavras ressonância e repercussão como sinônimas, quando na verdade há uma distinção de categoria entre elas, que se percebida dessa forma, nos ajuda a chegar num ponto mais próximo do que a Leda tão (poeticamente) coloca.

    Há um trajeto [de evolutividade] que todos percorreremos no Caminho do encontro e seria bom que pudéssemos perceber processualmente isso: nenhum ponto onde estejamos invalida os outros pontos pelos quais já passamos ou passaremos – todos são. Por isso termos a sensibilidade de estarmos sempre “em marcha” como propõe Leloup.

  3. Marly at 2009/02/28 16:49 says:

    Gracias Cris e Leda!

    Neste feriado, e sensibilizada pela ondulante paisagem do sul de Minas, com sua exuberante multiplicidade de formas, cores e sons, fiquei meditando sobre o que temos experienciado no Diálogos com Clarice. Percebi o quanto tem sido uma aprendizagem, com Clarice e com vcs, sobre mim mesma e sobre os seres que estamos sendo, e no quanto isso tem me mobilizado a fazer novas descobertas. É como se esse próprio movimento já pré-figurasse o que, em seguida, acabo encontrando.

    Sorval nos convida a atentar para o lócus, para o centro emissor de nossa palavra-verbo criador e ao mesmo tempo desenvolver uma escuta sensível que permita perceber o lócus da palavra do outro para que haja um encontro dos sons que somos (como diz a Leda) para além das ressonâncias subjetivas.

    Cris: eu também adorei a diferenciação feita por Bachelar, traz novas luzes. E o que vc diz é muito importante: perceber e valorizar a etapa em que estamos, pois cada passo dado transcende e inclui o anterior e faz parte do caminho, sem ele não avançamos.

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