Diálogo com Clarice - [ sobre Máscaras]
“Também Lóri usava a máscara de palhaço da pintura excessiva. Aquela mesma que nos partos da adolescência se escolhia para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se fizesse mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade. Mas é que este rosto que estivesse nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível: era pois menos perigoso escolher, antes que isso fatalmente acontecesse, escolher sozinha ser uma “persona”. Escolher a própria máscara era o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivelava a máscara daquilo que se escolhera para representar-se e representar o mundo, o corpo ganhava uma nova firmeza, a cabeça se podia às vezes se manter altiva como a de quem superou um obstáculo: a pessoa era.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.85
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5 respostas para “ Diálogo com Clarice - [ sobre Máscaras] ”
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Sobre máscaras…
“Quem me vê sempre parado, distante garante que eu não sei sambar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando e não posso falar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Há quanto tempo desejo seu beijo molhado de maracujá
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando, pisando, pensando que eu vou aturar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar ”
Quando o carnaval chegar
Chico Buarque
arre!
essa letra coube feito luva!!!
e pra completar: quem consegue aguentar o sol das 10 às 16 na cara, sem filtro?
“….escolher a própria máscara era o primeiro gesto voluntário humano…”
Aprendemos muito cedo a escolher nossas máscaras para nossos desempenhos na vida, em muitas acreditamos ser nosso próprio rosto, pela necessidade ou identificação, levamos parte de nossa vida para tirá-las, assumir nossa própria expressão. Quando conseguimos e podemos sentir o sol acariciar nosso pele e interagir dentro de nossa fragilidade, descobrimos que somos “inteiras” em nossa própria imperfeição.
Há muito tempo eu tive um sonho em que me defrontei com um pequeno ser, parecia uma criança, e percebi que em seu rosto havia uma máscara. Retirei essa máscara e surgiu outra. Retirei novamente e surgiu outra. E foi assim até que pude ver o seu verdadeiro rosto: um ser primitivo, quase um elemental.
O que se oculta por detrás das diferentes máscaras que usamos?
Em diferentes culturas tradicionais, as máscaras estão geralmente associadas aos rito agrários, funerários e de iniciação: neles as máscaras não escondem, mas revelam tendências superiores (Face divina) a serem assimiladas ou inferiores, que devem ser expurgadas (catarse). Nesse sentido, as máscaras visam dominar e controlar o mundo invisível.
A palavra “persona” designava originalmente, no teatro grego antigo, a máscara usada pelos atores - “per sona”, por onde soa - e o objetivo da representação era a identificação do ator com a manifestação divina figurada pela máscara.
Jung utiliza o conceito de persona para designar o sistema de adaptação, a maneira pela qual nos comunicamos com o mundo. Essa máscara vai sendo construída no processo de formação com o sentido de uma adaptação ao coletivo, a maneira como nos apresentamos publicamente. Podemos dizer que a persona não é verdadeiramente o que somos, mas o que nós mesmos e os outros pensam que somos. E está muito ligada à nossa necessidade de pertencimento.
O perigo está na identificação com a persona, quando a máscara substitui o próprio rosto.
Como bem diz a Luzia: “levamos parte de nossa vida para tirá-las, assumir nossa própria expressão”.
Tema bem atual, vcs não acham?
Muito atual Marly! Aliás cada tema dessas postagens daria um seminário atualíssimo. Que bom podermos estar tendo esse espaço de trocas e crescimento, acho também.