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Olhares…

Vis  o Qu  ntica 1 - Vis  o Qu  ntica 1
Todo processo de observação (e, consequentemente, de interpretação) defronta-se com três limites : o de um olhar parcial, o de um olhar subjetivo e o de um olhar partidário. O que pede uma ampliação de perspectivas que abra o nosso olhar para o que está entre, além e através do observado.

Podemos observar partes de um objeto, de um fenômeno ou de nós mesmos, mas não podemos perder de vista a relação dessas partes com o todo em que estão inseridas, suas interligações e articulações, seu contexto. Além disso, é preciso considerar a existência de pontos cegos, do ainda não visto, pois não conseguimos esgotar o que há p/ ser conhecido. O que nos coloca diante da necessidade de reconher a incompletude do conhecimento e seu devir possível.

Hoje, a neutralidade do observador vem sendo questionada. O sujeito é visto como implicado no processo de observação: a auto-referência. Mas podemos cair na armadilha do « subjetivismo ». Daí a importância de nos observarmos observando, de perceber o que está envolvido em nosso próprio processo de observação. Além disso, as trocas intersubjetivas nos permitem sair de uma observação exageradamente auto-centrada, abrindo outros olhares, sentidos e significados que podem ampliar os nossos e nos ajudar a perceber os aspectos em que estamos fixados e que nos impedem de avançar no processo de conhecimento e de autoconhecimento. São olhares que nos ajudam a ver melhor.

O olhar partidário, ou seja, os princípios teórico/conceitual/filosófico/existencial, os pressupostos em que nos apoiamos em nossa observação podem nos fazer crer que tudo pode ser determinado, previsto e controlado dentro dos parâmetros rígidos que nos impusemos. E o que escapa a estes parâmetros é desconsiderado. Essa unilateralidade nos impede de perceber a riqueza contida no indeterminado, no imprevisível, no emergente. Nossa observação pode atravessar esses muros, valorizar a não linearidade, os saltos, os vazios potencializadores e o que se apresenta em cada momento, num processo de observação que vai se fazendo ao observar.

Estes três limites são indissociáveis uns dos outros, estão em permanente interrelação. Cabe a nós ultrapassá-los… ou nos conformarmos com o já visto, o já sabido, o já experimentado…

Em Uma arte de cuidar – estilo alexandrino, Jean Yves Leloup propõe uma Escola do Olhar , que pode nos ajudar a melhorar a qualidade do nosso olhar em nosso trabalho de auto-observação :

O primeiro olhar é o do ver – eu vejo (constato)
O segundo é o olhar da ciência – eu observo, eu analiso (aprofundo o que vejo)
O terceiro olhar é o que pergunta – eu interrogo (o que é, como se manifesta?)
O quarto olhar é o que se pergunta – eu me interrogo (como é que vejo, como conheço?)
O quinto olhar se abre para o sentido – eu acolho o sentido (antes de interpretá-lo).
O sexto olhar é o da interpretação – eu interpreto (de maneira criadora)
O sétimo olhar é o que direciona e liberta – vá com sentido! (Vá rumo a você mesmo, você não está só!)

Marly



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3 respostas para “ Olhares… ”

  1. leda Fevereiro 18th, 2009 14:42

    Sempre usamos “veja” pra mostrar algo inteligivel…”veja bem:”… e colocamos as ideias….
    Mas, o que percebemos mesmo, é o invisivel entre as frases.
    É o silencio gritante em qualquer coisa feita com o proposito de dizer algo.
    Saber ouvir as intenções…..eis uma grande sabedoria!!
    Obrigada MarlY

  2. TCris Fevereiro 18th, 2009 19:22

    Essa profunda reflexão me remete diretamente ao trecho de uma analise literaria sobre Clarice Lispector:

    “Nossos sentidos estão de tal maneira conformados com o útil e o agradável que perderam a condição de perceber muitas outras formas de existência das coisas. Por isso, alguém capaz de captar outras faces do real é um ser estranho para as pessoas comuns; o que esse preceptor privilegiado apreende e comunica fica envolto numa atmosfera quase mágica…. Nos romances de Clarice o insólito está presente a todo momento. Não é surpresa, gratuidade ou magia. É algo sabido mas desconhecido; como certeza cega de que as coisas possuem existência muito mais rica do que essa atingível pelos homens no dia-a-dia. O insólito no discurso clariceano busca liberar o ser das coisas, aprisionado pelo nosso hábito de receber o mundo pronto sem interrogá-lo. Como se esse discurso repetisse sempre: olhe um cubo. De qualquer ponto de onde você o observe, verá no máximo três faces; mas ele tem outras.”

    Amariles Guimarães Hill. A EXPERIÊNCIA DE EXISTIR NARRANDO

  3. Marly Fevereiro 19th, 2009 20:58

    Cris e Leda:

    Gracias pela contribuição!

    Depois que escrevi esse texto, outras possíveis relações emergiram. Uma delas foi com a epígrafe do Ensaio sobre a Cegueira de Saramago: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” É um alerta para nos libertarmos da prisão da massificação e da superficialidade do olhar, de uma alienação que nos torna cegos, como pessoas e como sociedade.
    Outra veio dos diferentes níveis de olhar propostos por Ken Wilber: com os olhos da carne, com os olhos da mente e com os olhos da contemplação.

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