Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo de 18 de Fevereiro de 2009

Olhares…

Vis  o Qu  ntica 1 - Vis  o Qu  ntica 1
Todo processo de observação (e, consequentemente, de interpretação) defronta-se com três limites : o de um olhar parcial, o de um olhar subjetivo e o de um olhar partidário. O que pede uma ampliação de perspectivas que abra o nosso olhar para o que está entre, além e através do observado.

Podemos observar partes de um objeto, de um fenômeno ou de nós mesmos, mas não podemos perder de vista a relação dessas partes com o todo em que estão inseridas, suas interligações e articulações, seu contexto. Além disso, é preciso considerar a existência de pontos cegos, do ainda não visto, pois não conseguimos esgotar o que há p/ ser conhecido. O que nos coloca diante da necessidade de reconher a incompletude do conhecimento e seu devir possível.

Hoje, a neutralidade do observador vem sendo questionada. O sujeito é visto como implicado no processo de observação: a auto-referência. Mas podemos cair na armadilha do « subjetivismo ». Daí a importância de nos observarmos observando, de perceber o que está envolvido em nosso próprio processo de observação. Além disso, as trocas intersubjetivas nos permitem sair de uma observação exageradamente auto-centrada, abrindo outros olhares, sentidos e significados que podem ampliar os nossos e nos ajudar a perceber os aspectos em que estamos fixados e que nos impedem de avançar no processo de conhecimento e de autoconhecimento. São olhares que nos ajudam a ver melhor.

O olhar partidário, ou seja, os princípios teórico/conceitual/filosófico/existencial, os pressupostos em que nos apoiamos em nossa observação podem nos fazer crer que tudo pode ser determinado, previsto e controlado dentro dos parâmetros rígidos que nos impusemos. E o que escapa a estes parâmetros é desconsiderado. Essa unilateralidade nos impede de perceber a riqueza contida no indeterminado, no imprevisível, no emergente. Nossa observação pode atravessar esses muros, valorizar a não linearidade, os saltos, os vazios potencializadores e o que se apresenta em cada momento, num processo de observação que vai se fazendo ao observar.

Estes três limites são indissociáveis uns dos outros, estão em permanente interrelação. Cabe a nós ultrapassá-los… ou nos conformarmos com o já visto, o já sabido, o já experimentado…

Em Uma arte de cuidar – estilo alexandrino, Jean Yves Leloup propõe uma Escola do Olhar , que pode nos ajudar a melhorar a qualidade do nosso olhar em nosso trabalho de auto-observação :

O primeiro olhar é o do ver – eu vejo (constato)
O segundo é o olhar da ciência – eu observo, eu analiso (aprofundo o que vejo)
O terceiro olhar é o que pergunta – eu interrogo (o que é, como se manifesta?)
O quarto olhar é o que se pergunta – eu me interrogo (como é que vejo, como conheço?)
O quinto olhar se abre para o sentido – eu acolho o sentido (antes de interpretá-lo).
O sexto olhar é o da interpretação – eu interpreto (de maneira criadora)
O sétimo olhar é o que direciona e liberta – vá com sentido! (Vá rumo a você mesmo, você não está só!)

Marly

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Diálogo com Clarice - [sobre a Felicidade]

Margaridas - Margaridas

” Lóri estava suavemente espantada. Então isso era a felicidade. De início se sentiu vazia. Depois seus olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio de espaços? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta. Não. Não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade. Ela se despediu de Ulisses quase correndo: ele era o perigo “

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.74

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