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Diálogo com Clarice - [Sobre Ela e o mar – as nupcias]

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“ Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões. Lóri olhava o mar, era o que podia fazer.

…A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Lóri está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização da Natureza. A coragem de Lóri é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir, e agir sem se conhecer exige coragem.

Vai entrando… E agora está alerta, mesmo sem pensar, como um pescador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido secreto.

O caminho lento aumenta sua coragem secreta – e de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda! O sal, o iodo, tudo líquido deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo – espantada de pé, fertilizada.

…Com a concha das mãos e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheias de água, bebe-a em goles grandes, bons para a saúde de um corpo.
E era isso que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem.

Agora ela está toda igual a si mesma.”

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.78-80



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8 respostas para “ Diálogo com Clarice - [Sobre Ela e o mar – as nupcias] ”

  1. TCris Fevereiro 16th, 2009 11:32

    E depois desse encontro consigo mesma as coisas começam a aclarar-se, e a ter sabor, devagar…

    “Iniciada, pressentia a mudança de estação. E desejava a fruta mais cheia de um fruto enorme. Dentro daquele fruto que nela se preparava, dentro daquele fruto que era suculento, havia lugar para a mais leve das insônias diurnas que era a sua sabedoria de bicho acordado: um véu de alerteza, esperta bastante para apenas pressentir. Ah pressentir era mais ameno do que o intolerável agudo do bom. E que ela não se esquecesse, naquela sua fina luta travada, que o mais difícil de se entender, era a alegria.”

    Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.115

  2. luzia Fevereiro 16th, 2009 12:18

    …”como no amor em que a oposição pode ser um pedido secreto…”

    Quando nos relacionamos com o mundo apenas pela nossa “atenção” acabamos perdendo a sensibilidade de ouvir o amor quando nos chega.

  3. Lana Fevereiro 16th, 2009 12:45

    é a coragem que nos faz férteis.
    em todos os sentidos.

  4. leda Fevereiro 16th, 2009 12:49

    “Lóri está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização da Natureza. ”

    Profudo misterio nessa passagem.
    O processo de salgação do mar, pelas forças angelicas,
    faz com que o mar não seja só , por ser salgado e grande.

  5. TCris Fevereiro 17th, 2009 11:52

    “Era um corpo consigo mesma dessa vez. Escura, machucada, cega - como achar nesse corpo a corpo um diamante diminuto mas que fosse feérico, tão feérico como imaginava que deveriam ser os prazeres. Mesmo que não os achasse agora, ela sabia, sua exigência se havia tornado infatigável. Ia perder ou ganhar? Mas continuaria seu corpo a corpo com a vida. Nem seria com sua própria vida, mas com a vida. Alguma coisa se desencadeara nela, enfim. E aí estava ele, o mar.”
    Para Lana, com carinho!

  6. Lana Fevereiro 17th, 2009 12:20

    menina!
    chorei, né?
    e, sim! vou no corpo a corpo com a vida. até chegar ao mar.

    caramba… chorei mesmo!
    brigada Cris!

  7. TCris Fevereiro 18th, 2009 10:44

    ” Ler um livro é como um jogo, uma aventura que transforma o leitor. Encontramos sempre mistério, corremos sempre um risco. É essa a proposta de Clarice: fazer com que o leitor participe de sua história, entre no jogo, sinta-se protagonista. O desafio é a construção do sujeito, ou melhor: Lóri. Loreley, a sereia germânica que seduzia os navegantes do Reno; a sereia de Campos a quem Ulisses resiste, fechando-se a seus encantos, até que eles mesmos se tornem encantados.”

    Geysa Silva. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres - análise literária.

  8. Marly Fevereiro 19th, 2009 21:46

    E a sereia retorna ao mar. Mas desta vez não está lá como a sedutora que conduz à morte. Desta vez, é a mulher “antiga no ritual retomado que abandonara há milênios”: o encontro de dois mistérios, na entrega. O corpo delimitado mergulhando no mar ilimitado, e sendo por ele fertilizado.

    “Se a pessoa sabe que foi selecionada por escolha e intensão divinas, desde o início do mundo,então ela se sente alçada para mais além da transitoriedade e da ausência de sentido da existência humana comum e transportada para um novo estado de dignidade e de importância, como alguém que tem um papel no drama divino”, diz Jung.

    E o o cheiro de maresia desperta Lori de “seu mais adormecido sono secular”… “E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça não poderá perder tudo isso”.

    O sal é representado na alquimia como elemento amargo, como solvente, como origem das cores e é considerado feminino. Ele simboliza os sentimentos diferenciados e a capacidade de vincular-se (Eros) com apoio da sabedoria.

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