Diálogo com Clarice - [Vá para si mesma ou sobre o Silêncio]

“Ulisses falou: _ Bem tranqüila Lóri, vá bem tranqüila. Mas cuidado. E´ melhor não falar, não me dizer. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o “próprio silêncio”. “
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p 71
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13 respostas para “ Diálogo com Clarice - [Vá para si mesma ou sobre o Silêncio] ”
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E Clarice mergulha no silêncio escrevendo um longo trecho sobre… Posto abaixo o trecho inicial dessa reflexão; quem tiver o livro pode ir complementando, se o desejar. Quem não tiver e o desejar pode me solicitar por e-mail.
“Amanheceu.
O que se passara no pensamento de Lóri naquela madrugada era tão indizível e intransmissível como a voz de um ser humano calado. Só o silêncio da montanha lhe era equivalente. O silêncio da Suíça, por exemplo. Lembrou-se com saudades do tempo em que o pai era rico e viajavam vários meses por ano.
Por mais intransmissíveis que fossem os humanos, eles sempre tentavam se comunicar através de gestos, de gaguejos, de palavras mal ditas e malditas. Já era de manhã mais alta quando ela preparou o café forte, tomou-o e dispôs-se a se comunicar com Ulisses, já que Ulisses era o seu homem. Escreveu:
“ E´tão vasta a noite na montanha. Tão despovoada. A noite espanhola tem o perfume e o eco duro do sapateado da dança, a italiana temo mar cálido sesmo se ausente. Mas a noite de Berna tem o silêncio.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. Ed. Rocco, 1998. p. 35-39
Sobre o diurno, o noturno e o silêncio (1):
Chamou minha atenção a maneira como Clarice apresenta os momentos de passagem da noite para o dia (aurora) e do dia para a noite (crepúsculo). São momentos de transição de um nível de consciência (voltado ao exterior) para outro (voltado ao interior), em que ambos se interpenetram aprofundando o aprendizado, a jornada rumo a si mesma.
Começo a compreender porque na p. 31 ela escreve apenas: Luminescência. É como se ela buscasse apreender uma Luz contida na escuridão (tão temida!) que traz consigo o Silêncio necessário para que ela posso dizer: estou sendo…
A aurora
Após viver a noite de terror assombrada por seus medos, e já aliviada pelo apoio de Ulisses, Lori espera sem pressa a madrugada: a melhor luz de viver, promessa da aurora do despertar, sempre possível. E se antes evitara sentir, agora estava aprendendo e podia viver o que havia a ser vivido: sua vida nas madrugadas, banhando-se na luz lunar (refletida), tornando-se límpida. “E o que se passara era tão indizível e intransmissível como a voz de um ser humano calado”.
” Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio?… O silêncio é a profunda noite secreta do mundo”. Mas há um silêncio que ainda não é o silêncio… é preciso esperar… Há “um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da Terra e da Lua. Então ele, o silêncio aparece. E o coração bate ao reconhecê-lo: pois ele é o de dentro da gente… O coração tem que se apresentar diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio de uma taquicardia nas trevas… Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio… Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento: a luz da aurora”.
É preciso coragem e confiança para atravessar as trevas, encarar os fantasmas amedrontadores, calar as vozes que falam do certo e do errado, do falso e do verdadeiro, romper os diques das certezas, para poder se apresentar diante do Nada e do Silêncio e ouvir uma flauta que, em doce melodia, anuncia a Aurora, o despertar.
Aqui,o silêncio só é cortado pelas cigarras, pelos grilos e os passarinhos nas ramadas das árvores.E eu gosto.
Mas no silêncio da noite,consigo ouvir a voz do silêncio, que vem tardia no alvorecer da madrugada.
Clarice fala de diferentes sons do silêncio e queixa-se do despovoamento da montanha e até da falta de eco para os seus pensamentos.
Só resta a esperança de um novo amanhecer, depois de atravessar a nossa noite de medos e incertezas.
A Isabel, querida amiga, é uma cidadã luso-brasileira que mora atualmente na Chapada de Santo Antonio do Leite, imediações de Ouro Preto - MG. Já tive o privilégio de ficar alguns dias na casa dela, de onde se avista, de vários pontos da casa, as serras que cercam a região.
Nos conhecemos num blog da Internet há anos atrás quando ela morava ainda em Portugal e temos juntas muitas boas lembranças da visita a Ouro Preto que fiz na sua companhia.
Ela conhece muito bem Portugal porque já morou lá muito tempo - e conhece muitas nuances do silêncio. Amiga do coração que sempre responde! nos entendemos bem no silencio também.
Beijão, Isabel.
Deus criou tudo quando disse…..
tudo foi criado pela palavra, que é som e numero.
Ha um ruido muito forte no mundo, o som dele girando no espaço…e o som de todos os clamores e vozes que não ouvimos…e o grande som da alma que por uma babel de linguas, não consegue a tradução de seu anseio de luz.!!!!
Tudo isso quando sonoriza em nosso sangue,cria o silencio
magico do nascer da aurora …lembrei de jacob Boehme- Aurora nascente….
Que lindo Leda! Pode falar mais sobre Aurora nascente?
Cris,
envio algumas imagens de jacob boehme que editei.
veja:
http://www.youtube.com/watch?v=PhmeXFh7X60
Seja bem-vinda Isabel! Tive a feliz oportunidade de viajar por Portugal e me apaixonei pela terra e pelo povo. Sua presença conosco nos enche de alegria. Grande abraço!
Leda: belíssimo o video que vc produziu! E fiquei feliz em saber que vc conhece a obra de Jacob Boehme (1574-1625). Tenho um grande amigo, Américo Sommerman, que traduziu para o português e editou várias obras de Boehme (Ed. Polar). Em 1998, participei de um grupo de estudos sobre “A Aurora Nascente”, sob coordenação de Américo. E quando mencionei a aurora também estava pensando nele. Sintonias!!!
Marly,
JA li quase toda obra de boehme, e imagino a felicidade ser amiga desse profundo conhecedor de jacob B. (Américo S.),que tb foi Co-coordenador do Centro de Educação Transdisciplinar.
Tem certas pessoas, que ja são portais….
Clarice, abre portas da profundidade do ser….
assim, como Boehme, com uma diferença de luminosidade!!!
Leda: A Companhia nasceu no Centro de Educação Transdisiplinar - CETRANS, do qual Américo é um dos fundadores. Vou comentar com ele sobre vc.
Vc falou bem: há pessoas que são portais…
Clarice, com sua arte, abre as portas de sua profunda interioridade, contribuindo para que nos voltemos para a nossa.
Boheme, um simples sapateiro iletrado, através do que foi revelado a ele, vai além… e desvela os mundos supra-sensíveis e o mistério da própria Criação: Como tudo foi e veio a ser no início… Ele nos convida a nos deixarmos guiar pela inteligência do coração para que a Aurora desponte em nós.
Marly,
grata pela sua carinhosa acolhida.
Voltarei mais vezes para falar das minhas perplexidades e da eterna aprendizagem de viver.
Que bom Isabel! Somos companheiras nessa aprendizagem!
Também dialoguei com Clarice. Veja em “Os portais da viagem”: Lóri: uma aprendizagem. www.erciliamacedo.com.br
Obrigada. ercília.