Blog da Companhia de Aprendizagem

Diálogo com Clarice - [Vá para si mesma ou sobre o Silêncio]

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“Ulisses falou: _ Bem tranqüila Lóri, vá bem tranqüila. Mas cuidado. E´ melhor não falar, não me dizer. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o “próprio silêncio”. “

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p 71



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13 respostas para “ Diálogo com Clarice - [Vá para si mesma ou sobre o Silêncio] ”

  1. TCris Fevereiro 8th, 2009 13:37

    E Clarice mergulha no silêncio escrevendo um longo trecho sobre… Posto abaixo o trecho inicial dessa reflexão; quem tiver o livro pode ir complementando, se o desejar. Quem não tiver e o desejar pode me solicitar por e-mail.

    “Amanheceu.
    O que se passara no pensamento de Lóri naquela madrugada era tão indizível e intransmissível como a voz de um ser humano calado. Só o silêncio da montanha lhe era equivalente. O silêncio da Suíça, por exemplo. Lembrou-se com saudades do tempo em que o pai era rico e viajavam vários meses por ano.

    Por mais intransmissíveis que fossem os humanos, eles sempre tentavam se comunicar através de gestos, de gaguejos, de palavras mal ditas e malditas. Já era de manhã mais alta quando ela preparou o café forte, tomou-o e dispôs-se a se comunicar com Ulisses, já que Ulisses era o seu homem. Escreveu:

    “ E´tão vasta a noite na montanha. Tão despovoada. A noite espanhola tem o perfume e o eco duro do sapateado da dança, a italiana temo mar cálido sesmo se ausente. Mas a noite de Berna tem o silêncio.”

    Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. Ed. Rocco, 1998. p. 35-39

  2. Marly Fevereiro 8th, 2009 18:35

    Sobre o diurno, o noturno e o silêncio (1):

    Chamou minha atenção a maneira como Clarice apresenta os momentos de passagem da noite para o dia (aurora) e do dia para a noite (crepúsculo). São momentos de transição de um nível de consciência (voltado ao exterior) para outro (voltado ao interior), em que ambos se interpenetram aprofundando o aprendizado, a jornada rumo a si mesma.
    Começo a compreender porque na p. 31 ela escreve apenas: Luminescência. É como se ela buscasse apreender uma Luz contida na escuridão (tão temida!) que traz consigo o Silêncio necessário para que ela posso dizer: estou sendo…

    A aurora

    Após viver a noite de terror assombrada por seus medos, e já aliviada pelo apoio de Ulisses, Lori espera sem pressa a madrugada: a melhor luz de viver, promessa da aurora do despertar, sempre possível. E se antes evitara sentir, agora estava aprendendo e podia viver o que havia a ser vivido: sua vida nas madrugadas, banhando-se na luz lunar (refletida), tornando-se límpida. “E o que se passara era tão indizível e intransmissível como a voz de um ser humano calado”.
    ” Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio?… O silêncio é a profunda noite secreta do mundo”. Mas há um silêncio que ainda não é o silêncio… é preciso esperar… Há “um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da Terra e da Lua. Então ele, o silêncio aparece. E o coração bate ao reconhecê-lo: pois ele é o de dentro da gente… O coração tem que se apresentar diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio de uma taquicardia nas trevas… Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio… Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento: a luz da aurora”.

    É preciso coragem e confiança para atravessar as trevas, encarar os fantasmas amedrontadores, calar as vozes que falam do certo e do errado, do falso e do verdadeiro, romper os diques das certezas, para poder se apresentar diante do Nada e do Silêncio e ouvir uma flauta que, em doce melodia, anuncia a Aurora, o despertar.

  3. Isabel Duarte Fevereiro 9th, 2009 12:00

    Aqui,o silêncio só é cortado pelas cigarras, pelos grilos e os passarinhos nas ramadas das árvores.E eu gosto.
    Mas no silêncio da noite,consigo ouvir a voz do silêncio, que vem tardia no alvorecer da madrugada.
    Clarice fala de diferentes sons do silêncio e queixa-se do despovoamento da montanha e até da falta de eco para os seus pensamentos.
    Só resta a esperança de um novo amanhecer, depois de atravessar a nossa noite de medos e incertezas.

  4. TCris Fevereiro 9th, 2009 13:57

    A Isabel, querida amiga, é uma cidadã luso-brasileira que mora atualmente na Chapada de Santo Antonio do Leite, imediações de Ouro Preto - MG. Já tive o privilégio de ficar alguns dias na casa dela, de onde se avista, de vários pontos da casa, as serras que cercam a região.

    Nos conhecemos num blog da Internet há anos atrás quando ela morava ainda em Portugal e temos juntas muitas boas lembranças da visita a Ouro Preto que fiz na sua companhia.

    Ela conhece muito bem Portugal porque já morou lá muito tempo - e conhece muitas nuances do silêncio. Amiga do coração que sempre responde! nos entendemos bem no silencio também.

    Beijão, Isabel.

  5. leda Fevereiro 9th, 2009 14:20

    Deus criou tudo quando disse…..
    tudo foi criado pela palavra, que é som e numero.
    Ha um ruido muito forte no mundo, o som dele girando no espaço…e o som de todos os clamores e vozes que não ouvimos…e o grande som da alma que por uma babel de linguas, não consegue a tradução de seu anseio de luz.!!!!
    Tudo isso quando sonoriza em nosso sangue,cria o silencio
    magico do nascer da aurora …lembrei de jacob Boehme- Aurora nascente….

  6. TCris Fevereiro 9th, 2009 20:43

    Que lindo Leda! Pode falar mais sobre Aurora nascente?

  7. leda Fevereiro 10th, 2009 12:05

    Cris,
    envio algumas imagens de jacob boehme que editei.
    veja:
    http://www.youtube.com/watch?v=PhmeXFh7X60

  8. Marly Fevereiro 10th, 2009 12:51

    Seja bem-vinda Isabel! Tive a feliz oportunidade de viajar por Portugal e me apaixonei pela terra e pelo povo. Sua presença conosco nos enche de alegria. Grande abraço!

    Leda: belíssimo o video que vc produziu! E fiquei feliz em saber que vc conhece a obra de Jacob Boehme (1574-1625). Tenho um grande amigo, Américo Sommerman, que traduziu para o português e editou várias obras de Boehme (Ed. Polar). Em 1998, participei de um grupo de estudos sobre “A Aurora Nascente”, sob coordenação de Américo. E quando mencionei a aurora também estava pensando nele. Sintonias!!!

  9. leda Fevereiro 10th, 2009 17:24

    Marly,
    JA li quase toda obra de boehme, e imagino a felicidade ser amiga desse profundo conhecedor de jacob B. (Américo S.),que tb foi Co-coordenador do Centro de Educação Transdisciplinar.
    Tem certas pessoas, que ja são portais….
    Clarice, abre portas da profundidade do ser….
    assim, como Boehme, com uma diferença de luminosidade!!!

  10. Marly Fevereiro 10th, 2009 18:36

    Leda: A Companhia nasceu no Centro de Educação Transdisiplinar - CETRANS, do qual Américo é um dos fundadores. Vou comentar com ele sobre vc.

    Vc falou bem: há pessoas que são portais…
    Clarice, com sua arte, abre as portas de sua profunda interioridade, contribuindo para que nos voltemos para a nossa.
    Boheme, um simples sapateiro iletrado, através do que foi revelado a ele, vai além… e desvela os mundos supra-sensíveis e o mistério da própria Criação: Como tudo foi e veio a ser no início… Ele nos convida a nos deixarmos guiar pela inteligência do coração para que a Aurora desponte em nós.

  11. Isabel Duarte Fevereiro 10th, 2009 20:10

    Marly,
    grata pela sua carinhosa acolhida.
    Voltarei mais vezes para falar das minhas perplexidades e da eterna aprendizagem de viver.

  12. Marly Fevereiro 10th, 2009 22:13

    Que bom Isabel! Somos companheiras nessa aprendizagem!

  13. ercília macedo-eckel Julho 24th, 2010 17:04

    Também dialoguei com Clarice. Veja em “Os portais da viagem”: Lóri: uma aprendizagem. www.erciliamacedo.com.br

    Obrigada. ercília.

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