Blog da Companhia de Aprendizagem

Diálogo com Clarice [Oração]

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[Lóri] “ Não, não devia pedir mais vida. Por enquanto era perigoso. Ajoelhou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava, e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade., faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.”

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.56



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5 respostas para “ Diálogo com Clarice [Oração] ”

  1. TCris Fevereiro 2nd, 2009 16:42

    “faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta…”

  2. TCris Fevereiro 2nd, 2009 16:47

    As orações feitas com sinceridade me parecem círculos ardentes que se expandem e entrelaçam a outras orações e assim vão ascendendo para o Alto. E as bençãos vão se distribuindo em chuva contínua a cada orante, na medida que possam percebe-las. Todos oramos por todos, sinto.

  3. Marly Fevereiro 4th, 2009 11:33

    A questão de Ulisses - “Você sabe rezar? … pedir o máximo de si mesma?” - leva Lori a outras interrogações sabendo que precisaria ter cuidado com o que pedisse, pois seria atendida:

    “Pedir? Como é que se pede? E o que se pede?
    Pede-se vida?
    Mas já não se está tendo vida?
    Existe uma mais real.
    O que é real?”

    “…Não, não devia pedir mais vida… Não era à toa que ela entendia os que buscavam caminho. Como buscava arduamente o seu! E como hoje buscava com sofreguidão e aspereza o seu melhor modo de ser… um modo de andar,um passo certo… o atalho onde ela fosse finalmente ela… quando estivesse mais pronta, passaria de si para os outros… quando pudesse sentir plenamente o outro estaria salvo… Mas antes precisava tocar em si própria, antes precisava tocar o mundo.”

    Essa maneira tocante com que Clarice aborda o ato de rezar me fez refletir sobre o que se poderia chamar de oração ativa: não se trata de apenas pedir algo e esperar receber, mas de presentificar um modo de ser que envolve uma abertura para outros níveis de realidade e de consciência, para o sagrado que nos habita. Então, o sagrado nos abraça e nos religa aos outros e ao mundo.

  4. Marly Fevereiro 4th, 2009 11:50

    Cris: Que beleza o que vc diz! Talvez seja por isso que, apesar do mundo caótico em que vivemos, vão sendo abertas brechas para a passagem da Luz, trazendo uma Ordem de um outro nível cujo designio é um mistério que nos ultrapassa e escapa à nossa compreensão.

  5. leda Fevereiro 4th, 2009 20:30

    ““…Não, não devia pedir mais vida… Não era à toa que ela entendia os que buscavam caminho. Como buscava arduamente o seu! E como hoje buscava com sofreguidão e aspereza o seu melhor modo de ser… um modo de andar,um passo certo… o atalho onde ela fosse finalmente ela… quando estivesse mais pronta, passaria de si para os outros… quando pudesse sentir plenamente o outro estaria salvo… Mas antes precisava tocar em si própria, antes precisava tocar o mundo.”

    Quando se quer aperfeiçoar o proprio ser, so se constroi um arduo caminho…nunca a libertação.
    a virtude não se constroe com imposição a alma, mas nasce em consequencia de algo que nem percebemos o que foi….
    “o atalho onde ela fosse finalmente ela…”( essa parte é especial).

    é de um profundo mergulho..todo esse texto cris, e mais profundo os comentarios de vcs acima …
    Me faz entrar em estado de oração.!!!

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