Arquivo de Fevereiro de 2009
Repercussão e ressonâncias

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma cousa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
(Álvaro de Campos)
A palavra, a locução só é possível a partir de um lócus que lhe dá suporte, de um centro de emissão e de ressonância, diz Gerard de Sorval (La Marelle, ou les sept marches du paradis). Trata-se de encontrar um lugar no interior da alma a partir do qual se realiza um estado primordial, de participar de uma luz interior que não é o reflexo de uma luz do mundo exterior.
E na linguagem poética, a imagem isolada, a frase que a desenvolve, o verso ou o que é irradiado por ele formam espaços de linguagem, diz G. Bachelard (A poética do espaço).
Como é que o aparecimento de uma imagem poética singular pode atuar em outras almas, em outros corações, apesar de todas as barreiras do senso comum, de todos os pensamentos “sensatos”, felizes em sua imobilidade?
A poesia é uma alma inaugurando uma forma e fazendo dela a sua morada.
O leitor não deve encarar a imagem poética como um objeto, muito menos como um substituto do objeto, mas captar sua realidade específica. O poeta fala no limiar do ser. A imagem poética emerge na consciência como um produto direto do coração da alma, do ser do homem tomado em sua atualidade. E ela terá uma sonoridade de ser quando sentirmos sua repercussão.
Bachelard nos convida a ultrapassar as ressonâncias sentimentais com que recebemos a obra de arte. “As ressonâncias dispersam-se nos diferentes planos da nossa vida no mundo; a repercussão convida-nos a um aprofundamento da nossa própria existência. Na ressonância ouvimos o poema; na repercussão o falamos, ele é nosso. A repercussão opera uma inversão do ser. Parece que o ser do poeta é o nosso ser. A multiplicidade das ressonâncias sai então da unidade de ser da repercussão. Dito de maneira mais simples: trata-se aqui de uma impressão bastante conhecida de todo leitor apaixonado por poemas: o poema nos toma por inteiro”.
O par ressonância-repercussão reanima profundezas em nosso ser, fazendo com que um poder poético se erga em nós. É depois da repercussão que podemos experimentar ressonâncias sentimentais, recordações do nosso passado, pois a imagem atingiu as profundezas antes de emocionar a superfície. “E isso é verdade numa simples experiência de leitura. Essa imagem que a leitura do poema nos oferece torna-se realmente nossa. Enraíza-se em nós mesmos. Nós a recebemos, mas sentimos a impressão de que teríamos podido criá-la, de que deveríamos tê-la criado. A imagem torna-se um ser novo da nossa linguagem, nos expressa tornando-nos aquilo que ela expressa - noutras palavras, ela é ao mesmo tempo um devir de expressão e um devir do nosso ser. Aqui, a expressão cria o ser”.
Marly
3 comentários »Diálogo com Clarice - [Tempo do Sagrado]

“Cristo foi Cristo para os outros. Quem foi um Cristo para o Cristo? Ele tivera que ir diretamente ao Deus. E ela, sentada então no banco da igreja quisera também poder ir direto à Onipotência sem ser através da condição humana de Cristo que era também a sua e a dos outros. E oh Deus não querer ir a Ele através da condição misericordiosa de Cristo, talvez não passasse de novo do medo de amar. Levantou-se e tornou a bordar. “
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.67
3 comentários »Diálogo com Clarice - [ sobre Máscaras]
“Também Lóri usava a máscara de palhaço da pintura excessiva. Aquela mesma que nos partos da adolescência se escolhia para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se fizesse mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade. Mas é que este rosto que estivesse nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível: era pois menos perigoso escolher, antes que isso fatalmente acontecesse, escolher sozinha ser uma “persona”. Escolher a própria máscara era o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivelava a máscara daquilo que se escolhera para representar-se e representar o mundo, o corpo ganhava uma nova firmeza, a cabeça se podia às vezes se manter altiva como a de quem superou um obstáculo: a pessoa era.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.85
5 comentários »Olhares…

Podemos observar partes de um objeto, de um fenômeno ou de nós mesmos, mas não podemos perder de vista a relação dessas partes com o todo em que estão inseridas, suas interligações e articulações, seu contexto. Além disso, é preciso considerar a existência de pontos cegos, do ainda não visto, pois não conseguimos esgotar o que há p/ ser conhecido. O que nos coloca diante da necessidade de reconher a incompletude do conhecimento e seu devir possível.
Hoje, a neutralidade do observador vem sendo questionada. O sujeito é visto como implicado no processo de observação: a auto-referência. Mas podemos cair na armadilha do « subjetivismo ». Daí a importância de nos observarmos observando, de perceber o que está envolvido em nosso próprio processo de observação. Além disso, as trocas intersubjetivas nos permitem sair de uma observação exageradamente auto-centrada, abrindo outros olhares, sentidos e significados que podem ampliar os nossos e nos ajudar a perceber os aspectos em que estamos fixados e que nos impedem de avançar no processo de conhecimento e de autoconhecimento. São olhares que nos ajudam a ver melhor.
O olhar partidário, ou seja, os princípios teórico/conceitual/filosófico/existencial, os pressupostos em que nos apoiamos em nossa observação podem nos fazer crer que tudo pode ser determinado, previsto e controlado dentro dos parâmetros rígidos que nos impusemos. E o que escapa a estes parâmetros é desconsiderado. Essa unilateralidade nos impede de perceber a riqueza contida no indeterminado, no imprevisível, no emergente. Nossa observação pode atravessar esses muros, valorizar a não linearidade, os saltos, os vazios potencializadores e o que se apresenta em cada momento, num processo de observação que vai se fazendo ao observar.
Estes três limites são indissociáveis uns dos outros, estão em permanente interrelação. Cabe a nós ultrapassá-los… ou nos conformarmos com o já visto, o já sabido, o já experimentado…
Em Uma arte de cuidar – estilo alexandrino, Jean Yves Leloup propõe uma Escola do Olhar , que pode nos ajudar a melhorar a qualidade do nosso olhar em nosso trabalho de auto-observação :
O primeiro olhar é o do ver – eu vejo (constato)
O segundo é o olhar da ciência – eu observo, eu analiso (aprofundo o que vejo)
O terceiro olhar é o que pergunta – eu interrogo (o que é, como se manifesta?)
O quarto olhar é o que se pergunta – eu me interrogo (como é que vejo, como conheço?)
O quinto olhar se abre para o sentido – eu acolho o sentido (antes de interpretá-lo).
O sexto olhar é o da interpretação – eu interpreto (de maneira criadora)
O sétimo olhar é o que direciona e liberta – vá com sentido! (Vá rumo a você mesmo, você não está só!)
Marly
3 comentários »Diálogo com Clarice - [sobre a Felicidade]

” Lóri estava suavemente espantada. Então isso era a felicidade. De início se sentiu vazia. Depois seus olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio de espaços? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta. Não. Não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade. Ela se despediu de Ulisses quase correndo: ele era o perigo “
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.74
6 comentários »Diálogo com Clarice - [Sobre Ela e o mar – as nupcias]

“ Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões. Lóri olhava o mar, era o que podia fazer.
…A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Lóri está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização da Natureza. A coragem de Lóri é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir, e agir sem se conhecer exige coragem.
Vai entrando… E agora está alerta, mesmo sem pensar, como um pescador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido secreto.
O caminho lento aumenta sua coragem secreta – e de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda! O sal, o iodo, tudo líquido deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo – espantada de pé, fertilizada.
…Com a concha das mãos e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheias de água, bebe-a em goles grandes, bons para a saúde de um corpo.
E era isso que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem.
Agora ela está toda igual a si mesma.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.78-80
8 comentários »Diálogo com Clarice - Lembrete
[Ulisses] _ “ Nos piores momentos, lembre-se : quem é capaz de sofrer intensamente também poderá ser capaz de intensa alegria.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.97
6 comentários »O Projecto Clarice

O Projecto Clarice está sendo realizado atualmente pela aluna Patrícia Lino (18 anos), para a cadeira de Métodos e Técnicas de Pesquisa, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto - Portugal. Tem como principal objetivo divulgar a obra literária de Clarice Lispector e divide-se em seis partes:
A primeira é constituída pelo suporte escrito, onde é apresentado um plano de trabalho relativo à temática da imprevisibilidade explosiva ou a teoria da antecipação errada em três contos de Clarice Lispector.
A segunda corresponde a um processo fotográfico, baseado em duas citações da escritora - cujo resultado ilustra o suporte escrito.
A terceira é composta pela realização de um trabalho digital, com a criação de uma página relativa a Clarice Lispector.
A quarta corresponde às várias e possíveis representações pictóricas da escritora.
A quinta, a um curta-metragem, cujo tema central se baseia em todo o mistério que se nos apresenta, assim que contactamos com Clarice Lispector.
A sexta e última parte baseia-se na realização de sessões de leitura (em homenagem à escritora). Duas delas já ocorreram em 2008, e é ainda pretendida a realização de mais uma.
Além disso, foi publicado um artigo e o conto “Felicidade Clandestina” no jornal quinzenal dos alunos, e distribuídos 250 panfletos pelas ruas da cidade do Porto.
Deixei uma mensagem para Patricia, parabenizando-a pelo excelente trabalho e convidando-a a conhecer o nosso Diálogo com Clarice.
Vale conferir…
Marly
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