Atualmente, tem-se falado muito em mudança de paradigma. Ao mesmo tempo em que vemos certos conceitos “entrando em moda” e terminando por ser esvaziados de seu sentido ou utilizados de maneira inapropriada. Afinal de contas, à que nos referimos quando falamos em paradigma?
A palavra paradigma vem do grego parádeigma (modelo, padrão) e pode ser definida, de maneira geral, como um conjunto de regras e regulamentos que estabelecem limites e dão indicações de como resolver situações-problema, dentro desses limites.
Em nosso processo de formação, o paradigma predominante em nosso meio sócio-cultural e científico – com sua concepção de mundo e seu sistema de crenças e valores – exerce uma poderosa influência (nem sempre consciente) em todos os aspectos de nossas vidas e de nossas práticas. Os paradigmas funcionam como uma espécie de filtro: selecionando o que percebemos e reconhecemos. São úteis porque nos permitem detalhar as informações recebidas, concentrando e focalizando nossa atenção, mas trazem o risco de distorcer os dados que não combinam com as expectativas por ele criadas, nos afastando daquilo que contraria o seu padrão.
Diante de um determinado tema, o que é percebido por uma pessoa que adota certo paradigma poderá não ser percebido por uma outra que adota um paradigma diferente: é o “efeito paradigma”. Maturana e Varela falam dos nossos “pontos cegos cognitivos”: não vemos que não vemos, não percebemos que ignoramos. É somente quando algo nos tira do óbvio, abala nossas certezas, nos tira da “zona de conforto” – e nos permitimos refletir e questionar – que percebemos a quantidade de relações que tomamos como garantidas.
Além disso, o paradigma também influencia nossas ações fazendo com que acreditemos que a maneira como fazemos as coisas é “a certa” ou “a única maneira de fazer”. O que leva a uma “paralisia do paradigma”, tornando-nos pouco flexíveis e resistentes a mudanças, impedindo-nos de aceitar idéias novas e de ver outras oportunidades que se encontram ao nosso redor. A certeza absoluta deve dar lugar à certeza relativa se pretendermos trilhar o caminho da mudança. Transformar o círculo vicioso em círculo virtuoso, como diz Pineau.
A decisão de abraçar um novo paradigma não é um processo fácil e rápido. Ao contrário, quase sempre é lento e doloroso, requer esforço, exige coragem, pois envolve o colapso de toda uma estrutura de idéias, virando tudo de ponta cabeça, fazendo perder o chão… Por isso, não existem “fórmulas mágicas”. As mudanças de paradigma só podem ocorrer por meio de vivências, de experiências, de evidências que nos coloquem frente a frente com os limites de nosso paradigma atual. Nesse processo, ajuda perguntar: O que me parece impossível fazer hoje, mas que se fosse feito mudaria radicalmente as coisas? Temos que ousar…
Fonte: Vasconcellos, Maria José Esteves de – Pensamento sistêmico: O novo paradigma da ciência. Campinas, SP: Papirus, 2002.
Marly



