Arquivos mensais: janeiro, 2009

Data: 2009.01.15 | Categoria: Agenciamento | Comentário: 9

poliedros 03Atualmente, tem-se falado muito em mudança de paradigma. Ao mesmo tempo em que vemos certos conceitos “entrando em moda” e terminando por ser esvaziados de seu sentido ou utilizados de maneira inapropriada. Afinal de contas, à que nos referimos quando falamos em paradigma?

A palavra paradigma vem do grego parádeigma (modelo, padrão) e pode ser definida, de maneira geral, como um conjunto de regras e regulamentos que estabelecem limites e dão indicações de como resolver situações-problema, dentro desses limites.
Em nosso processo de formação, o paradigma predominante em nosso meio sócio-cultural e científico – com sua concepção de mundo e seu sistema de crenças e valores – exerce uma poderosa influência (nem sempre consciente) em todos os aspectos de nossas vidas e de nossas práticas. Os paradigmas funcionam como uma espécie de filtro: selecionando o que percebemos e reconhecemos. São úteis porque nos permitem detalhar as informações recebidas, concentrando e focalizando nossa atenção, mas trazem o risco de distorcer os dados que não combinam com as expectativas por ele criadas, nos afastando daquilo que contraria o seu padrão.

Diante de um determinado tema, o que é percebido por uma pessoa que adota certo paradigma poderá não ser percebido por uma outra que adota um paradigma diferente: é o “efeito paradigma”. Maturana e Varela falam dos nossos “pontos cegos cognitivos”: não vemos que não vemos, não percebemos que ignoramos. É somente quando algo nos tira do óbvio, abala nossas certezas, nos tira da “zona de conforto” – e nos permitimos refletir e questionar – que percebemos a quantidade de relações que tomamos como garantidas.
Além disso, o paradigma também influencia nossas ações fazendo com que acreditemos que a maneira como fazemos as coisas é “a certa” ou “a única maneira de fazer”. O que leva a uma “paralisia do paradigma”, tornando-nos pouco flexíveis e resistentes a mudanças, impedindo-nos de aceitar idéias novas e de ver outras oportunidades que se encontram ao nosso redor. A certeza absoluta deve dar lugar à certeza relativa se pretendermos trilhar o caminho da mudança. Transformar o círculo vicioso em círculo virtuoso, como diz Pineau.

A decisão de abraçar um novo paradigma não é um processo fácil e rápido. Ao contrário, quase sempre é lento e doloroso, requer esforço, exige coragem, pois envolve o colapso de toda uma estrutura de idéias, virando tudo de ponta cabeça, fazendo perder o chão… Por isso, não existem “fórmulas mágicas”. As mudanças de paradigma só podem ocorrer por meio de vivências, de experiências, de evidências que nos coloquem frente a frente com os limites de nosso paradigma atual. Nesse processo, ajuda perguntar: O que me parece impossível fazer hoje, mas que se fosse feito mudaria radicalmente as coisas? Temos que ousar…

Fonte: Vasconcellos, Maria José Esteves de – Pensamento sistêmico: O novo paradigma da ciência. Campinas, SP: Papirus, 2002.

Marly

Data: 2009.01.14 | Categoria: Diálogo com Clarice | Comentário: 15

RemediosVaro   Encuentro

“De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé – muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo – em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre. A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano.”

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.32

Data: 2009.01.12 | Categoria: Diálogo com Clarice | Comentário: 5

E chegamos no apesar de…

GAZA  - ataque aéreo- www.terra.com.br - 12.01.09

_ “ Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranqüilo, Lóri, uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem siquer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.”

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.26

Data: 2009.01.09 | Categoria: Agenciamento, Diálogos | Comentário: 1

Edson Pedroso   Crep  sculo II 1 2 3Abandonado como o cais ao crepúsculo, movendo os tempos, retorcendo as sombras nas mãos, na hora de partir; a mescla de geógrafo, viajante e romancista faz do hermeneuta alguém que parte, constantemente, para reencontrar-se. No panorama matutino de uma gnose, isto é, o conhecimento do meu mundo interior no interior do mundo, a jornada interpretativa pressupõe deixar o lugar seguro das certezas primeiras para mergulhar no acaso, no ocaso de um crepúsculo que nos ensina o panorama maior, o ciclo que nos ultrapassa e que nos envolve.

Diz o poeta:

é preciso caminhar na escuridão e se encontrar com o coração do homem, com os olhos da mulher, com os desconhecidos das ruas, dos que a certa hora crepuscular ou em plena noite estrelada precisam nem que seja de um único verso… Esse encontro com o imprevisto vale pelo tanto que a gente andou, por tudo que a gente leu e aprendeu… É preciso perder-se entre os que não conhecemos para que subitamente recolham o que é nosso da rua, da areia, das folhas caídas mil anos no mesmo bosque. (NERUDA, P. Confesso que vivi. São Paulo: Círculo do Livro, 8ª. 1980, p. 274)

Assim sendo, a jornada interpretativa, que se pode entender como gnose, se dá numa intelecção amorosa, isto é, num amor inteligente que ama a própria compreensão.

Foto: Edson Pedroso

Texto: FERREIRA SANTOS, Marcos. Espaços crepusculares: poesia, mitohermenêutica e educação de sensibilidade. Revista @mbienteeducação, volume 1, número 1, Jan/Julho 2008.

Na jornada interpretativa somos, ao mesmo tempo, o cenário, o viajante e a viagem.

Marly

Data: 2009.01.08 | Categoria: Diálogo com Clarice | Comentário: 1

“E chovia muito esse inverno. [Lóri] Então usou a outra mesada do pai e procurou – com que prazer andava pelas lojas procurando até achar – e procurou e comprou para todos os alunos e alunas de sua classe, guarda-chuvas vermelhos e meias de lã vermelha.
Era assim que ela afogueava o mundo.

umbrellas

…O seu guarda-chuva vermelho quando aberto parecia um pássaro escarlate de asas transparentes abertas.”

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.101

Data: 2009.01.08 | Categoria: Trans | Comentário: 0

teia 1

Estava revisando os artigos que entrarão no site CETRANS (Centro de educação Transdisciplinar) e re-encontrei o artigo da Mariana Lacombe Loisel – Um galo sozinho não tece a manhã. Colaboradora eventual e amiga da Companhia, ela atualmente está no Canadá.

Vale a pena relembrar o que, segundo ela, pode também ser trans…

“Hoje, rompendo com o pensamento dominante do século passado, um século marcado pelo pensamento cartesiano, positivista e disciplinar, que se dava no contexto da extrema fragmentação do conhecimento, ser transdisciplinar equivale a ser um ser de relações, um ser de diálogo, que mantém sua especificidade disciplinar, sua formação primitiva; no meu caso a formação filosófica; mas que não se fecha a influenciar e receber influências de outros campos de conhecimento, ousando cruzar saberes oriundos das ciências exatas, com as ciências humanas, as artes e as diferentes tradições espirituais. “

O texto na íntegra está em Saberes, no site do CETRANS.
Confira!

TCris

Data: 2009.01.07 | Categoria: Diálogo com Clarice | Comentário: 11

Aproveitando o belíssimo vídeo postado sincronicamente pela Leda no tópico anterior – http://br.youtube.com/watch?v=atD1H5aFBhA – , lá vai:

“Ulisses ouvira de testa franzida . E depois dissera:

_ E então você não quis mais nada disso. E parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito. Lóri. Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderia ter você com o meu corpo e a minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia.

http://www.sxc.hu//

Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e segurança por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregues a nós mesmos pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “ pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta.”

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.47-48

Data: 2009.01.04 | Categoria: Diálogo com Clarice | Comentário: 7

www.sxc.hu//

“…pois agora, mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver. Lembrou-se de escrever a Ulisses contando o que se passara, mas nada se passara em palavras escritas ou faladas.”

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres.
ed. Rocco, 1998. p.15

Todo mês de janeiro e julho, leio decididamente, obras literárias. Parei de fazer listas de qualquer espécie já há algum tempo; leio o que me chega às mãos, e que tem sido sempre o que é necessário naquele momento. Chegou agora um livro da Clarice (Lispector) chamado Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.

O diálogo com Clarice é sempre revelador apesar de dolorido e vou respeitando a aparente aleatoriedade da prosa emaranhada, rica em “agenciamentos” para com ela ir descobrindo novos caminhos…já percorridos e sempre outros . São dois personagens (Lóri e Ulisses) e um encontro profundo de cada um consigo mesmo através do encontro entre um homem e uma mulher.

Aos poucos entro no diálogo com ele e comigo mesma através dele. Se você quiser participar, será uma alegria.

TCris