Diálogo com Clarice - [Um pensamento rizomático ou uma homenagem aos que buscam atravessar a dor]

“Sua alma incomensurável, Pois ela era o Mundo. E no entanto vivia o pouco. Isso constituía uma de suas fontes de humildade e forçada aceitação, e também a enfraquecia diante de qualquer possibilidade de agir.
Aliás, sentir-se humilde demais era de onde paradoxalmente vinha a sua altivez de pessoa. E´ que sua altivez – que se refletia no modo flexível e tranqüilo de andar – sua altivez vinha da certeza obscura que suas raízes eram fortes, e que sua humildade não era apenas humildade humana: é que qualquer raiz era forte, e sua humildade vinha da certeza obscura de que todas as raízes eram humildes, terrosas e cheias de úmido vigor na sua modéstia nodosa de raiz. “
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.43
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2 respostas para “ Diálogo com Clarice - [Um pensamento rizomático ou uma homenagem aos que buscam atravessar a dor] ”
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“E no entanto vivia o pouco. Isso constituía uma de suas fontes de humildade e forçada aceitação, e também a enfraquecia diante de qualquer possibilidade de agir.”
Quantas vezes fantasiamos essa “ausência de nós mesmos” com humildade e falsa aceitação e permanecemos exatamente assim enfraquecidos para agir.
Até que “uma mão” (nem sempre compreendida assim) nos empurre para o abismo… em direção ao encontro com as raizes porque sabe ” da certeza obscura de que todas as raízes eram humildes, terrosas e cheias de úmido vigor na sua modéstia nodosa de raiz. “
Linda imagem, Clarice!
Alma incomensurável… e vivia o pouco. Dolorosa constatação de não conseguir viver plenamente a sua potencialidade. Quantas barreiras internas e externas precisam ser ultrapassadas p/ que ser e agir sejam o reflexo um do outro? Longo caminho…
Humildade demais… Pensei que humildade também pode remeter a húmus, matéria orgânica que nutre a terra. Talvez por isso a altivez que vem da certeza da força de suas raizes, que vão além do humano.
Ulisses diz algumas vezes a Lori que ela é uma mulher muito antiga, mobilizando-a para encontrar sua força em suas raizes. O que me fez lembrar de uma bela poesia de Cora Coralina:
“A gleba me transfigura, sou semente, sou pedra.
Pela minha voz cantam todos os pássaros do mundo.
Sou a cigarra cantadeira de um longo estio que se chama Vida.
Sou formiga incansável, diligente, compondo seus abastos.
Em mim a planta renasce e floresce, sementeia e sobrevive.
Sou a espiga e o grão fecundo que retornam à terra.
Minha pena é a enxada do plantador,
é o arado que vai sulcando para a colheita das gerações.
Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios.
Eu sou a mulher mais antiga do mundo,
plantada e fecundada
no ventre escuro da terra”.
A beleza poética de Clarice me fez reencontrar a beleza poética de Cora: que mulheres!