Blog da Companhia de Aprendizagem

Diálogo com Clarice - [Auto-retrato de Ulisses]

René   Magritte  -  Unk

“Ele reclinou-se na cadeira um pouco cansado e disse:

_Você é das que precisam de garantia. Quer saber como eu sou para me aceitar? Vou me fazer conhecer melhor por você, disse com ironia. Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente. Também sou muito calmo e perdôo logo.Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de que eu me lembre. Sou paciente mas profundamente colérico, como a maioria dos pacientes. As pessoas nunca me irritam mesmo, certamente porque eu as perdôo de antemão. Gosto muito das pessoas por egoísmo: é que elas se parecem no fundo comigo. Nunca esqueço uma ofensa, o que é uma verdade, mas como pode ser verdade, se as ofensas saem de minha cabeça como se nunca nela tivessem entrado? …

_ Tenho uma paz profunda, continuou ele, somente porque ela é profunda e não pode ser sequer atingida por mim mesmo. Se fosse alcançável por mim, eu não teria um minuto de paz. Quanto à minha paz superficial, ela é uma alusão à verdadeira paz. Outra coisa que esqueci é que há outra alusão em mim – a do mundo grande e aberto. Sou professor de Filosofia porque é o que eu mais estudei e no fundo gosto de me ouvir falando sobre o que me interessa. Tenho um senso didático pronunciado que faz com que meus alunos se apaixonem pela matéria e me procurem fora das aulas. Este meu senso didático, que é uma vontade de transmitir, eu também tenho em relação a você, Lóri, se bem que você seja a pior de meus alunos. Bom, apesar de meu ar duro, que aliás vem também do fato de meu nariz ser tão reto, apesar de meu ar duro, sou cheio de muito amor e é isso que certamente me dá uma grandeza, essa grandeza que você percebe e de que tem medo.
Como se de súbito tivesse notado que falara sério, parou e riu para desfazer tudo que dissera:

_ Meu amor pelo mundo é assim: eu perdôo as pessoas terem um nariz mal feito ou terem lábios finos demais e serem feias – todo erro dos outros e nos outros é uma oportunidade para mim amar.”

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.59-60



 | Enviar por e-mail  | Hits para esta publicação: 1150

6 respostas para “ Diálogo com Clarice - [Auto-retrato de Ulisses] ”

  1. TCris Janeiro 22nd, 2009 16:37

    Pois é…uma leitura menos atenta inicialmente me deu a impressão de que Ulisses era imodesto. Depois percebi que ele era apenas sincero; dessa sinceridade escancarada que verdadeiramente não ousamos ter com ninguém e muitas vezes, nem a com a gente mesmo. Quase sempre ela cheira a farolice.

    E numa terceira leitura, já mais adiantada na continuidade do livro, percebi que eu, que vinha me identificando prontamente com a personagem feminino, trazia idéias, sentimentos e palavras também de Ulisses. Eu também era Ulisses! O que me fez pensar que a genial Clarice talvez esteja propondo também, num outro nívelk de realidade, o encontro do feminino e masculino dentro de cada um de nós.
    Será?

  2. TCris Janeiro 22nd, 2009 16:38

    “Tenho uma paz profunda, continuou ele, somente porque ela é profunda e não pode ser sequer atingida por mim.”

    Que lucidez que ilumina tem essa frase!

  3. leda Janeiro 22nd, 2009 19:23

    continuando com vc, Cris…
    ” Se fosse alcançável por mim, eu não teria um minuto de paz. Quanto à minha paz superficial, ela é uma alusão a verdadeira paz. Outra coisa que esqueci é que há outra alusão em mim – a do mundo grande e aberto”.
    ..” sou cheio de muito amor e é isto que certamente me dá uma grandeza, essa grandeza que você percebe e de que tem medo.”
    A alusão faz um pequeno modelo do q se é em realidade, denuncia, sinaliza, dá bandeira, imita.

    Temos em nós os flagrantes de nossa alma mais “profunda”, aquela que quando estamos diante dela, não sobra nada de nós mesmos.

    “Tenho uma paz profunda, continuou ele, somente porque ela é profunda e não pode ser sequer atingida por mim. Se fosse alcançável por mim, eu não teria um minuto de paz.”

    tudo que o ego (”por mim”) toca, deixa de ser profundo , se instalando o estado caotico que é a sua natureza.

  4. Marly Janeiro 22nd, 2009 22:08

    Essa apresentação que Ulisses faz de si mesmo me pareceu uma expressão de “sua vontade de transmitir” e, ao mesmo tempo, de se expor. Ele reconhece que estava brincando e, com isso, dizendo a sua verdade. Muitas vezes a gente também faz isso…
    Parece que ele quer mostrar que existe uma maneira mais leve de olhar para si e expressar suas contradições, em contraponto à necessidade de Lori de ter todas as garantias, o que impede que ela viva o prazer, a alegria de viver.
    É uma fala que (mais uma vez) contém vários paradoxos: alma prolixa e poucas palavras, irritável e calmo, não esquece e não lembra, paciente e colérico… Culminando com essa maravilhosa fala sobre a paz profunda (como vcs ressaltaram)… e a paz superficial, que não passa de uma alusão à verdadeira paz (grata pelo esclarecimento Leda).
    Fiquei com uma sensação de que essa paz profunda não é uma conquista,pois assim sendo não traria paz. Mas que é um dom: ela nos é concedida quando ultrapassamos a nós mesmos.
    Mas, antes de morrer para a nossa dimensão existencial, com suas contradições, temos que vivê-la e aceitar os paradoxos. Para então, como o pardal, ciscar o chão que parece vazio, mas vendo que ali está o alimento.

    Cris - também reconheço esses dois níveis no texto: o encontro de um homem e uma mulher e a integração do masculino e feminino. Foi bom vc ter mencionado isso. Ulisses oferece um eixo, um mastro, para que Lori, a sereia, não se afogue em suas próprias águas.

  5. luzia Janeiro 23rd, 2009 15:29

    Ainda sobre a paz profunda…..poderia ser um instante de morte dos nossos sonhos, desejos e ilusões, armadilhas do ego, que se dá através de uma total entrega, uma rendição ao que parece posto e determinado. Abre-se um espaço ao nada, total vazio, tela em branco onde o “eu” se encontra sem passado nem futuro, apenas o “instante já”, renovado, nenhuma dor ou medo, apenas o “nada” a invadir a alma numa paz total.
    São momentos raros, porém, possíveis e necessários ao renascimento e unificação do “eu”, talvez, onde as energias do masculino e feminino se integram num profundo encontro.

  6. leda Janeiro 24th, 2009 11:00

    “Tenho um SENSO DIDÁTICO pronunciado que faz com que meus alunos se apaixonem pela matéria e me procurem fora das aulas. Este meu SENSO DIDÁTICO, que É UMA VONTADE DE TRANSMITIR,..”

    Rica frase. o saber quando compartilhado ilumina o rosto ,cria uma incandecencia suave na pele refletindo a luz interna.O dom de transmitir, é um estágio mais sublime do saber e do amor.

Deixe uma resposta.