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Diálogo com Clarice [Sobre o Não entender]

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“E era bom.
“Não entender” era tão vasto que ultrapassava qualquer entender – entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não-entender. Era uma benção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.

Mas de vez em quando vinha a inquietação insuportável: queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia. Embora no fundo não quisesse compreender. Sabia que aquilo era impossível e todas as vezes que pensara que se compreendera era por ter compreendido errado. Compreender era sempre um erro – preferia a largueza tão ampla e livre e sem erros que era não-entender. Era ruim, mas pelo menos se sabia que se estava em plena condição humana.

No entanto às vezes, adivinhava…Eram manchas cósmicas que substituiam entender.”

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.43-44



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8 respostas para “ Diálogo com Clarice [Sobre o Não entender] ”

  1. TCris Janeiro 20th, 2009 09:30

    “Lori ficou quieta. Percebia que ele pensava alto e que ela não precisava entender. “

    Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.52

  2. Gabi Janeiro 20th, 2009 10:00

    Por incrivel que pareça me senti um tanto Lori agora, e o que foi mais interessante é que desta forma pude me sentir menos frustrada por não entender, até mesmo leve por não entender… “preferia a largueza tão ampla e livre e sem erros que era não-entender.” Muito interessante!

  3. luzia Janeiro 20th, 2009 10:02

    “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que vc não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento…”

  4. luzia Janeiro 20th, 2009 10:05

    “…Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós…”

    C.Lispector. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.

  5. leda Janeiro 20th, 2009 11:35

    ” Era uma benção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.”

    ah…frase bendita!!!!!

  6. marly Janeiro 20th, 2009 21:24

    É instigante a maneira como ela transita entre o desejo de entender e de não-entender, como ela expressa esse paradoxo existencial.
    Poder ser “uma mancha difusa de instintos, doçuras e ferocidades, uma trêmula irradiação de paz e luta, como era humanamente”… Sair das fronteiras limitantes do entendimento através do não-entender que leva ao infinito.
    E, no entanto, suas interrogações buscam o entendimento de si mesma: … ele lhe parecia ser o limite entre o passado e o que viesse - o que viria? / Estaria na verdade lutando contra sua própria vontade intensa de aproximar-se do impossível de um outro ser humano? / … ajudava Ulisses aplicando-se depressa em aprender - o que? / … tinha uma espécie de receio de ir, como se pudesse ir longe demais - em que direção? / Ela se guardava. Por que e para quê? / Os limites de um humano eram divinos? / Queria ela a salvação?
    Entre a aceitação do não-entender e as interrogações que mobilizam o entender está a busca de um sentido para o que ela vive e de sua própria existência.

    Podemos nos reconhecer nisso…

  7. TCris Janeiro 21st, 2009 12:20

    Sim, podemos nos reconhecer nessa dualidade e em colocarmo-nos “em marcha” (como gosta de dizer Leloup!) rumo à transcendencia daquele estado de ser onde acolhemos o não ser para um novo vir a ser.

    “Porque embora sem saber o que queria, além de um dia vir a dormir com ele, adivinhava que seria algo tão difícil de dar e receber que ele talvez se recusasse.
    …Se era a salvação que ela esperava de Ulisses, isso seria pedir tanto e tão grande que ele negaria? Ela nunca vira ninguém salvar o outro, então temia uma aproximação que só faria desiludi-la na confirmação de que um ser não transpassa o outro como sombras que se trespassam.
    …E restava, ainda como sombra da dor sombria de que fora feita antes de Ulisses, o pensamento desalentado: o que ela era, era apenas uma pequena parte de si mesma.” p.42-43

  8. TCris Janeiro 21st, 2009 12:37

    vejam a sequência do diálogo (implícito) do narrador-autor presente no texto e além do personagem (Marly, que forma o eixo vertical):

    ” oque ela era, era apenas uma pequena parte de si mesma.”

    “Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento…”

    “Era uma benção estranha como a de ter loucura sem ser doida. ”

    “No entanto às vezes, adivinhava…
    Eram manchas cósmicas que substituiam entender.”

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