“De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé – muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo – em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre. A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.32

Retomando as palavras da Leda: “A descontrução da ilusão humana é sempre o primeiro passo no caminho da verdade.
São cascas que caem quando seguimos para a luz.
Elas ficam pelos nossos rastros: o amor que se esperava fiel,o dinheiro que poderia comprar a liberdade, o saber que poderíamos criar elos conscientes…”
Me lembrei então da tela de Remedios Varo – “Encuentro” e refletindo nela, vi as inúmeras caixas-cascas que vamos abrindo durante a existência (s?, até que um dia nos deparamos com o abismo … do encontro.
ou seja: a vida é deixar-se soltar de todas as mãos… realmente, é preciso coragem e fé! ai ai…
ou também:
“Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou”
(Almir Sater)
e também:
…ando devagar por que já tive pressa
e levo esse sorriso por que já chorei demais
cada um de nós compõe a sua história
e cada ser em si carrega o dom de ser capaz
de ser feliz…
“a fé é o firme fundamento daquilo que não se ve.”
Por isso a fé é cega!
Para entrega-se é preciso mais que coragem, mais que confiança, é preciso fé.
So saltamos de uma dimensão para outra quando nos lançamos inteiros, e confiamos na graça divina… só assim a magica da vida se faz .
Quem desconheçe essa verdade, vive aflito , preocupado, escravo dos pequenos mundos…..
Por isso cris, “Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente”, é muito pouco pra quem sonha como as águias….
“A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano.”eu diria mais….torna-se anjo!!!!!
ah, linda a imagem acima escolhida para o tema……!
Leda:
Ninguém chegará a anjo antes de vivenciar a sua dimensão humana. Quem saberá o que está à nossa frente? vamos tocando em frente.
“Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Ou nada sei…”
A nossa ignorância é bem maior do que o nosso conhecimento. Compreender a marcha pode nos localizar: Onde estamos?
A mão que empurra para o abismo é mais forte do que a que segura?
Ter fé na fé… Largar os velhos apoios conhecidos, dar o salto no vazio, viver as pequenas mortes que prenunciam o novo nascimento, alcançar a dimensão humana para poder reconhecer, reencontrar a dimensão angélica… Nesse ponto, talvez não se trate mais de ter fé, mas de Saber.
Uma coisa me chamou a atenção na imagem: o que é encontrado no baú? Dele emerge a própria face e também um tecido (como água) que se enrosca nas pernas (impedindo de andar) e acaba compondo a vestimenta. Prisioneira de si mesma?
UAU! Interessante leitura de imagem, Marly! eu não tinha percebido assim …interpretei como ambas serem feitas da mesma substancia e terem se dividio em algum momento…o tecido indicava que elas sempre estariam juntas…o ser e o vir a ser?
E á a tal da jornada interpretativa que nos faz ver apenas o que somos capazes de perceber…paradigmaticamente!
Vox populi:
” Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá
Olálá!
Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá…”
(Gilberto Gil)
Muito delicada a sua observação Marly, veja tb que na prateleira, tem vários baús…que será?
Sobre o observar-se, coloco um texto de krishnamurti:
“Muito importa descobrirdes como olhais a vós mesmo e quem é a entidade que olha. O observador que olha a si próprio é diferente da coisa a que observa? “
Cris: Eu senti uma certa tristeza no olhar dela, a mesma tristeza da face que emerge do baú. E também percebo que ambas estão relacionadas pela mesma espécie de vestimenta feita de um tecido que, ao mesmo tempo, parece velho e meio esfarrapado e parece água brotando como em cascata do baú ( uma dimensão psico-emocional?). É como se ela pudesse ver a sua própria situação ao abrir o baú,que contém tudo aquilo que ficou guardado e esquecido. E ainda existem mais baús a serem abertos, como observou a Leda. E o que estava alienado, dividido entre consciência e inconsciência, encontra o seu lugar de correspondência. Parece um momento de lucidez dolorosa: o que nos prende está dentro de nós mesmos. E essa revelação abre para um novo olhar, para o vir a ser…
Uma interpretação complementa a outra e a diversidade de olhares permite uma ampliação da compreensão.
Leda: Essa frase do Krishnamurti convida a uma meditação mais aprofundada. Mas veio à minha lembrança o que fala o Ken Wilber e emergiu a seguinte questão: Com que olhos observamos, com os olhos da carne, da alma ou do espírito? São olhares diferentes? Entramos, então, na necessidade de considerar os diferentes níveis de realidade, de percepção e de consciência, como propõe a transdisciplinaridade.
A mesma mão que ampara e a que apunhala!
Epa!!! esse comentário não fui eu quem fiz… de quem será?
Essa insegurança de nos lançarmos no vazio, vai certamente nos incomodar até poder se entregar com confiança.
A imagem é impressionante:
O que temos no baú?
E o que ainda tem nos outros baús?
Se aquilo que vemos, sempre pode ser encarado de maneira diferente, deve ser porque isso depende do nosso atual nível de conciência.