E chegamos no apesar de…
_ “ Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranqüilo, Lóri, uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem siquer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.26

A TRAJETÓRIA DE LÓRI OU A CONSTRUÇÃO DE UM EU:
“Talvez fossem os seus “apesar de” que, Ulisses dissera, cheios de angústia e desentendimento de si própria, a estivessem levando a construir pouco a pouco uma vida.”
p.27,28
“Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.”
(Chico Buarque. Apesar de você)
pois é! tenho pensado muito nessa história de tempo. de esperar por. de não se importar se demorar. a minha pergunta é: quanto tempo temos para esperar?
Lana:
Não pude deixar de pensar: há quanto tempo (evolutivamente) já temos esperado para de repente, num dado momento de um ano longíquo de 2008, tomarmos a consciêcia (finalmente ufa!!!) que podemos escolher também a alegria? Me parece uma trajetória existencial para termos de nos apropriar ainda do que é ser humano; o que vira depois, quando formos capazes de viver a alegria?
E é claro que isso é apenas um ponto de vista…
Sabe Cris, seu ponto de vista me fez pensar que quando sobermos escolher viver de fato a alegria, entenderemos sem sobressaltos os “apesar que” existentes em quase tudo…