Date: 2009.01.07 | Category: Diálogo com Clarice | Tags:

Aproveitando o belíssimo vídeo postado sincronicamente pela Leda no tópico anterior – http://br.youtube.com/watch?v=atD1H5aFBhA – , lá vai:

“Ulisses ouvira de testa franzida . E depois dissera:

_ E então você não quis mais nada disso. E parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito. Lóri. Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderia ter você com o meu corpo e a minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia.

http://www.sxc.hu//

Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e segurança por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregues a nós mesmos pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “ pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta.”

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.47-48

11 responses to “Diálogo com Clarice – [Sobre a pobre vitória humana ]”

  1. TCris at 2009/01/07 14:02 says:

    Ulisses,
    …eu tenho tentado escapar todos os dias. A cada dia temos pequenas vitórias e grandes quedas. Mas as pequenas vitórias às vezes nos dão a ilusão (?) de que se tornam mais contínuas, como se estivéssemos finalmente aprendendo…e então, as quedas parecem menores, mais espaçadas. E embora essa seja uma jornada incrivelmente solitária, quando reconhecemos companheiros de trajeto, aqui ou lá, nos sentimos mais fortes.

    TCris

  2. Marly at 2009/01/08 13:42 says:

    … e parou com a possibilidade da dor…

    Podemos continuar apesar da dor? Apesar das quedas que inevitavelmente seguem as vitórias? Sim, precisamos atravessar as ilusões, nos desiludir, perceber tudo o que mascara a nossa real condição para poder ir reconhecendo a nossa verdadeira face. É como se precisássemos entrar numa dança de luz e sombra para que surja a Luz que não tem sombra. E estamos todos na mesma dança…

  3. Lana at 2009/01/09 13:41 says:

    “Não nos temos entregues a nós mesmos pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos”.

    Confesso. Tem acontecido comigo invariavelmente. Quando estou a um passo da alegria plena, volto dois. Defesa pura e descarada. Medo. De tudo.

    (demais esse texto… demais…)

  4. TCris at 2009/01/09 14:22 says:

    Lana:

    “O que acontecia na verdade com Lóri, é que por alguma decisão tão profunda que os motivos lhe escapavam – ela havia por medo cortado a dor. Só com Ulisses viera a aprender que não se podia cortar a dor – senão se sofreria o tempo todo. E ela havia cortado sem siquer ter outra coisa que em si substituísse a visão das coisas através da dor de existir, como antes. Sem a dor, ficara sem nada, perdida no seu próprio mundo e no alheio sem forma de contato.” p.40

    Esse tem sido o aprendizado de Lóri, a personagem feminina desse encontro (será a mulher mais propensa à dor? pensei agora). E nisso nos encontramos todos nós…é longo o aprendizado da alegria!

  5. leda at 2009/01/12 16:44 says:

    … mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce”

    Um coração que clama por eternidade, aquele que moveu sidarta gautama a se tornar Buda, é” essa procura intensa e uma esperança violenta”.
    Somos dor , nascer é dor , viver é dor, morrer é dor e nascer novamente é dor….como parar a dor eihm MarlY?
    Será que essa “voz baixa e doce ” ainda consegue despertar
    a verdade que se mesclou com a mentira? A luz que se misturou com as trevas para pensarmos pela metade…e nos perdermos de vez em tantas catedrais externas…
    Lori, ” Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação” porque salvação é sal , e o sal é um mistério que corre em nosso sangue e em nosso suor.
    ” E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta.”

  6. Marly at 2009/01/12 21:15 says:

    Leda, vc me faz uma boa pergunta: como parar a dor? Pois é, como? Na resposta que a Cris deu à Lana, vemos que Clarice diz que o caminho não é o de cortar a dor por medo de vivê-la. Pois isso nos leva a uma espécie de anestesia e nos impede de aprender o que a dor tem a ensinar. E olha que hoje vivemos os tempos do Doril: tomou, a dor sumiu!(rsrsrs).
    Não se trata também de fazer uma apologia do sofrimento e cair na mortificação.
    Fui aprendendo que podemos viver apesar da dor e a ver na dor uma mensagem de que algo está fora de lugar, de que algo está latejando sob a pedra que, mesmo sem saber, pusemos para não sentir. A dor é sempre o resultado de algum tipo de contração, de falta de espaço interior, de algo que não tem canal de expressão. E é somente quando nos permitimos sentí-la, sem nos identificarmos com ela, que podemos perceber o que ela tem a nos dizer. Aí, a dor deixa de ser um horror e pode passar a ser o mestre do momento. Entre a dor e o seu alívio está a nossa consciência.

    Em termos corporais, uma das coisas preciosas que aprendi na Eutonia foi a relaxar na dor, sem combatê-la, dirigindo o olhar interior para o seu foco. Por incrível que possa parecer, a dor se dissolve…

  7. Marly at 2009/01/12 21:22 says:

    Só para completar: Buda diz que a dor é o resultado da ignorância de quem somos verdadeiramente.

  8. leda at 2009/01/12 23:38 says:

    Belas palavras e profunda lógica, só quem sentiu pode saber.
    Palavras que penetram nossos ossos, e refazem nossa medula .
    Clarisse diz muito, mas tem um som de quem pesou na hora de voaar….isso cria dor em vez de sabedoria………….
    Que me perdoem os poetas e seus devotos, mas os anjos ruflam suas asas cada vez que nos reconhecemos diferentes da nossa fala, e lançam cordas cada vez que nos calamos.
    ” a dor silente universal que é a dor maior que a dor de deus”
    A dor so nos ensina a conviver com ela. Quero falar da dor que ensina a nos libertarmos de qualquer culto a ela…mesmo que pareça pretenção, quero ver a dor dissociada das liçoes, que foi mais uma formula para convivermos de mãos dadas com ela.
    Como vc disse Marly,
    “Entre a dor e o seu alívio está a nossa consciência”.
    Imagine a consciencia formada por esse caminho, que vicio prazeiroso ela cria por cada dor que se tranforma em prazer.
    Podemos ate ficar dependentes quimicos da dor…e do doril..rsrsr
    Ah se pudessemos falar com o silencio dos anjos, eu te diria o que não consigo e tu me ouvirias sem mais precisar
    da dor.

  9. TCris at 2009/01/13 00:08 says:

    “Era cruel o que fazia consigo própria: aproveitar que estava em carne viva para se conhecer melhor, já que a ferida estava aberta. Mais doía demais mexer-se nesse sentido.” p. 28

  10. Isabel Duarte at 2009/01/13 15:25 says:

    Eu também me sinto assim.
    Não sei o que me fez assim.
    Saí à procura de mim mesma e acho que foi mais do que a frustação dum casamento desfeito.Nem sei em que me apoiava para ter confiança de sobreviver longe da minha família.
    Procurava um sentido para a vida.Eu, como Clarice, me defrontei com esse sentido. Ignorar esse sentido, é o que alguns fazem, e vivem.Trágico é procurá-lo sem jamais o encontrar.
    Ter a sensação de que a vida nos passa ao lado é angustiante.Precisa arriscar. Assim apostamos tudo nisso e seguimos em frente.

  11. leda at 2009/01/13 16:02 says:

    “Saí à procura de mim mesma e acho que foi mais do que a frustação dum casamento desfeito”
    A descontrução da ilusão humana é sempre o primeiro passo
    no caminho da verdade.
    São cascas que caem quando seguimos para a luz.
    Elas ficam pelos nossos rastros:
    o amor que se esperava fiel,
    o dinheiro que poderia comprar a liberdade, o saber que poderíamos criar elos conscientes…tudo fica aos nossos pés . Precisamos desatar nossos pes desse laço..seguir descalço , como quem caminha com a fé.
    Ela, farol dos primeiros passos, guia-nos ao discernimento
    do verdadeiro falso, brotando em nosso ser a luminosidade que nos faz outro ,diante de quem éramos quando choravamos o nosso nascer.

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