Arquivo de Janeiro de 2009
Diálogo com Clarice - [diante da Eternidade]

“ Ela estava só. Com a eternidade à sua frente e atrás dela. O humano é só.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.74
6 comentários »FORUM SOCIAL MUNDIAL

Em 2001, 2002, 2003 e 2005, o FMS foi realizado em Porto Alegre - RS. Em 2004, na Índia. Em 2006, foi realizado de maneira descentralizada em Mali (África), Paquistão (Ásia) e Venezuela (Américas). E em 2007, no Quênia (África).
Com o tema Um Outro Mundo é Possível, estão previstas 2.400 atividades (plenárias, conferências, palestras, oficinas, eventos esportivos e culturais) abordando questões como: Mudanças Climáticas, Soberania Popular e Integração Regional, Identidades Culturais, Biodiversidade, Modelos Energéticos, Midias Livres, Crise Financeira Mundial, etc.
O FSM vem tornando evidente a capacidade de mobilização e de organização da sociedade civil na busca de novas formas de ação político-social, caracterizadas pela valorização da diversidade e da co-responsabilidade, e de criação de um espaço e processo permanentes voltados para a construção de alternativas às políticas sócio-ambientais e economicas vigentes.
Mesmo à distância, será importante acompanharmos esse evento.
Marly
Foto: Rodrigo Pozzebom/Agência Brasil - Fila para credenciamento
7 comentários »Diálogo com Clarice - [Um pensamento rizomático ou uma homenagem aos que buscam atravessar a dor]

“Sua alma incomensurável, Pois ela era o Mundo. E no entanto vivia o pouco. Isso constituía uma de suas fontes de humildade e forçada aceitação, e também a enfraquecia diante de qualquer possibilidade de agir.
Aliás, sentir-se humilde demais era de onde paradoxalmente vinha a sua altivez de pessoa. E´ que sua altivez – que se refletia no modo flexível e tranqüilo de andar – sua altivez vinha da certeza obscura que suas raízes eram fortes, e que sua humildade não era apenas humildade humana: é que qualquer raiz era forte, e sua humildade vinha da certeza obscura de que todas as raízes eram humildes, terrosas e cheias de úmido vigor na sua modéstia nodosa de raiz. “
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.43
2 comentários »“Peguei o Ita no norte…”
“Gente esse videoarte é para fotoinformá-los q eu estou flui_indo… seguindo o fluxo da das coisas, chegarei em Belém do Pará para o Fórum Social Mundial e São Luis, talvez Manaus também.
É isso, beijos e abraços! Nos veremos em futuras outras realiz_ações!
Vou lá tomar um banho de Vida e volto…;)”
Recebi do nosso amigo Ghuga, e achei belo, o vídeo e o momento!
Fiquei pensando no desamparo do homem diante daquelas águas…e na força da vontade, da coragem e da fé diante dos aparentes abismos que se apresentam… que estão ali apenas para nos desafiar a ser quem realmente somos?
Boa viagem, Ghuga!
TCris
Sem comentários »Diálogo com Clarice - [Auto-retrato de Ulisses]

“Ele reclinou-se na cadeira um pouco cansado e disse:
_Você é das que precisam de garantia. Quer saber como eu sou para me aceitar? Vou me fazer conhecer melhor por você, disse com ironia. Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente. Também sou muito calmo e perdôo logo.Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de que eu me lembre. Sou paciente mas profundamente colérico, como a maioria dos pacientes. As pessoas nunca me irritam mesmo, certamente porque eu as perdôo de antemão. Gosto muito das pessoas por egoísmo: é que elas se parecem no fundo comigo. Nunca esqueço uma ofensa, o que é uma verdade, mas como pode ser verdade, se as ofensas saem de minha cabeça como se nunca nela tivessem entrado? …
_ Tenho uma paz profunda, continuou ele, somente porque ela é profunda e não pode ser sequer atingida por mim mesmo. Se fosse alcançável por mim, eu não teria um minuto de paz. Quanto à minha paz superficial, ela é uma alusão à verdadeira paz. Outra coisa que esqueci é que há outra alusão em mim – a do mundo grande e aberto. Sou professor de Filosofia porque é o que eu mais estudei e no fundo gosto de me ouvir falando sobre o que me interessa. Tenho um senso didático pronunciado que faz com que meus alunos se apaixonem pela matéria e me procurem fora das aulas. Este meu senso didático, que é uma vontade de transmitir, eu também tenho em relação a você, Lóri, se bem que você seja a pior de meus alunos. Bom, apesar de meu ar duro, que aliás vem também do fato de meu nariz ser tão reto, apesar de meu ar duro, sou cheio de muito amor e é isso que certamente me dá uma grandeza, essa grandeza que você percebe e de que tem medo.
Como se de súbito tivesse notado que falara sério, parou e riu para desfazer tudo que dissera:
_ Meu amor pelo mundo é assim: eu perdôo as pessoas terem um nariz mal feito ou terem lábios finos demais e serem feias – todo erro dos outros e nos outros é uma oportunidade para mim amar.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.59-60
6 comentários »Diálogo com Clarice [Sobre o Não entender]

“E era bom.
“Não entender” era tão vasto que ultrapassava qualquer entender – entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não-entender. Era uma benção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.
Mas de vez em quando vinha a inquietação insuportável: queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia. Embora no fundo não quisesse compreender. Sabia que aquilo era impossível e todas as vezes que pensara que se compreendera era por ter compreendido errado. Compreender era sempre um erro – preferia a largueza tão ampla e livre e sem erros que era não-entender. Era ruim, mas pelo menos se sabia que se estava em plena condição humana.
No entanto às vezes, adivinhava…Eram manchas cósmicas que substituiam entender.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.43-44
8 comentários »As cinco qualidades do intérprete
“O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.
A primeira é a simpatia: não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar. A atitude cauta, a irônica, a deslocada – todas elas privam o intérprete da primeira condição para poder interpretar.
A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.
A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo: tem, porém, que fazê-lo depois que se usou da simpatia e da intuição. Um dos fins da inteligência, no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.
A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi a erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese, e a compreensão é uma vida. Assim, certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou ao mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.
A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.”
Fonte: PESSOA, Fernando - O Eu profundo e outros eus. 7ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, p.43-44.
Simpatia, Intuição, Inteligência, Compreensão, Graça.
Marly
6 comentários »Diálogo com Clarice - Momento mítico-filosófico

“Loreley é o nome de um personagem lendário, do folclore alemão, cantado num belíssimo poema por Heine. A lenda diz que Loreley seduzia os pescadores com seus cânticos e eles terminavam morrendo no fundo do mar, já não me lembro mais dos detalhes. Não, não me olhe com esses olhos culpados. Em primeiro lugar quem seduz você sou eu. Sei, sei que você se enfeita para mim, mas isso já é porque eu seduzo você. Eu não sou um pescador, sou um homem que um dia você vai perceber que ele sabe menos do que parece, apesar de ter vivido muito e estudado muito.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.97
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