Desejar é construir um agenciamento
Sempre gostei de assistir ou ler entrevistas de um autor sobre a sua obra. Ouvir a voz, as pausas, observar a gesticulação, a expressão facial, o brotar da resposta no instante… Saio com uma sensação de maior proximidade e, ao mesmo tempo, instigada pelo não dito, pelo que ficou apenas sugerido despertando o desejo de compreender melhor o que ele propõe.
No Abecedário de Gilles Deleuze (vídeo da entrevista realizada por Claire Parnet – 1988), ele fala sobre sua concepção de desejo no livro Anti-Édipo:
“Queríamos dizer a coisa mais simples do mundo: que até agora vocês falaram abstratamente do desejo, pois extraem um objeto que é, supostamente, objeto de seu desejo. Então podem dizer: desejo uma mulher, desejo partir, viajar, desejo isso e aquilo. E nós dizíamos algo realmente simples: vocês nunca desejam alguém ou algo, desejam sempre um conjunto. Não é complicado. Nossa questão era: qual é a natureza das relações entre elementos para que haja desejo, para que eles se tornem desejáveis?”
E ele complementa que, quando uma pessoa diz que deseja algo, uma roupa, por exemplo, evidentemente ela não deseja tal roupa em abstrato, mas dentro de um contexto de vida dela. E esse seu desejo vai se organizar em relação ao ambiente, aos seus amigos, à sua profissão, etc. “Nunca desejo algo sozinho, desejo bem mais… Também não desejo um conjunto, desejo em um conjunto”.
Para ele, não há desejo que não corra para um agenciamento. E o termo abstrato que corresponde ao desejo é construtivismo. “Desejar é construir um agenciamento, construir um conjunto, conjunto de uma saia, de um raio de sol (…) construir uma região, é realmente agenciar. (…) Ora, cada um de nós passa seu tempo construindo. Cada vez que alguém diz: desejo isso, quer dizer que ele está construindo um agenciamento, nada mais…”.
Ele diz que há quatro componentes de agenciamento:
1. Um agenciamento remete a estados de coisas: “que cada um encontre estados de coisas que lhe convenha. Para beber… gosto de um bar, não gosto de outro, alguns preferem certo bar, etc.”
2. Nas dimensões do agenciamento há enunciados, tipos de enunciados: “e cada um tem seu estilo, há um certo modo de falar, andam juntos. No bar, por exemplo, há amigos e há uma certa maneira de falar com os amigos, cada bar tem seu estilo. Digo bar, mas vale para qualquer coisa”.
“É interessante: a História é feita disto, quando aparece um novo tipo de enunciado? Por exemplo, na revolução russa, os enunciados do tipo leninista: quando eles aparecem, como, em que forma? Em 68, quando apareceram os primeiros enunciados ditos de 68? É bem complexo”.
3. E implica territórios: “cada um com seu território, há territórios. Mesmo numa sala, escolhemos um território. Entro numa sala que não conheço, procuro o território, lugar onde me sentirei melhor”.
4. E há processos que devemos chamar de desterritorialização: “o modo como saímos do território”.
“Um agenciamento tem quatro dimensões: estados de coisas, enunciações, territórios, movimentos de desterritorialização. E é aí que o desejo corre…”
Fiquei pensando no processo da Companhia, na auto/hetero/co/ecoformação e no desejo conjunto como construção desse projeto-agenciamento. Faz sentido…
Marly
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Uma resposta para “ Desejar é construir um agenciamento ”
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Marly:
Obrigada pelo link de Deleuze; estou lendo aos poucos aquela maravilha. De lá retirei um trecho contido em L de Literatura que me pareceu contribuir para entender um pouco melhor a idéia do livro como um agenciamento.
Vaí lá:
“É aquela história: o conceito não existe sozinho. O conceito, ao mesmo tempo que cumpre sua tarefa, ele faz ver coisas, está ligado aos perceptos. E o percepto, a gente o encontra em um romance. Há uma comunicação perpétua entre conceito e percepto. Há problemas de estilo que são os mesmos em Filosofia, como em Literatura.
É uma questão muito simples: os grandes personagens da Literatura são grandes pensadores. Eu acabo de reler vários livros de Melville. Está claro que o Capitão Ahab é um grande pensador, que Bartleby é um pensador. É um outro tipo de pensador, mas, mesmo assim, é um pensador. Eles nos fazem pensar. De maneira tal que uma obra literária tanto traça conceitos, de forma implícita, quanto traça perceptos . Isso é certo. Mas não cabe ao literato, pois ele não pode fazer tudo ao mesmo tempo. Está tomado pela questão do percepto, em nos fazer ver e perceber e em criar personagens! Imagine o que é criar personagens! É uma coisa impressionante!
O filósofo cria conceitos. Mas acontece que estes transmitem muito, porque o conceito, sob alguns aspectos, é um personagem. E o personagem tem a dimensão de um conceito. Pelo menos, eu acho. O que há de comum entre as duas atividades, a grande filosofia e a grande literatura, é que ambas testemunham em favor da vida…”