Blog da Companhia de Aprendizagem

Piruetas perceptivas

Cirque du Soleil - Cirque du Soleil

“Um livro não tem objeto nem sujeito; é feito de matérias diferentemente formadas, de datas e velocidades muito diferentes. Desde que se atribui um livro a um sujeito, negligencia-se este trabalho das matérias e a exterioridadede suas correlações. Fabrica-se um bom Deus para movimentos geológicos. Num livro, como em qualquer coisa, há linhas de articulação ou segmentaridade, estratos, territorialidades, mas também linhas de fuga, movimentos de desterritorialização e desestratificação. As velocidades comparadas de escoamento, conforme estas linhas, acarretam fenômenos de retardamento relativo, de viscosidade ou, ao contrário, de precipitação e de ruptura. Tudo isto, as linhas e as velocidades mensuráveis, constitui um Agenciamento. Um livro é um tal agenciamento e, como tal, inatribuível.”

(Deleuze & Guattari . Mil platôs)

Depois que descobrimos a idéia de Agenciamento de Deleuze e Guattari e a Marly teve a idéia “rizomática” de transformá-la em uma categoria do nosso blog, minha percepção tem dado algumas piruetas inusitadas no espaço-tempo .

Desafiada por essa categoria, já consigo perceber que um mesmo texto pode ser agenciado em diversas categorias; me ocorreu que alguns textos – que leio e escrevo - podem ser inseridos em cenários, diálogos, itinerância, por exemplo e por isso o título Mil Platôs começa a ganhar para mim um sentido de orientação, mais experencial.

Agora, quando leio alguns bons autores como Machado de Assis e José Saramago, para citar os últimos lidos (lembrei também de Borges!) parece que estou reconhecendo esse movimento na escrita deles. E´ incrível como uma nova percepção (no caso, cognitiva - se é que alguma delas pode deixar de sê-lo) pode nos conduzir a um redimensionamento do que já estava “conhecido” – e por mais que isso pareça senso comum , o maravilhamento de cada descoberta é sempre singular.

Assim é que capturei no blog de José Saramago o texto Sobre Fernando Pessoa, em Cadernos de Saramago, que dialoga comigo na idéia de agenciamento, com o conto O espelho de Machado de Assis, com a pesquisa sobre o que seja escrever, que estamos focando e com Mil Platôs:

“Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.”

Confira o texto na íntegra!

TCris



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3 respostas para “ Piruetas perceptivas ”

  1. Adriana Outubro 8th, 2008 18:38

    Eu também estou com várias “ piruetas perceptivas” e seguramente muitas delas precisarão ser elucidadas.

    Com calma compreenderemos os conceitos existentes em MIL PLATÔS ( Mil MESETAS no Espanhol) .

    Li a Introdução ao prefácio a Edição Italiana e criei uma breve correlação gráfica entre alguns termos.

    Os princípios que caracterizam as multiplicidades concernem a:

    ELEMENTOS que são SINGULARIDADES

    RELAÇÕES que são DEVIRES [1 ]

    ACONTECIMENTOS que são HECCEIDADES [2]

    ESPAÇOS-TEMPOS que são ESPAÇOS -TEMPOS LIVRES

    MODELO DE REALIZAÇÃO que é o RIZOMA [3]

    PLANO DE COMPOSIÇÃO que são PLATÔS [4]

    VETORES que constituem TERRITÓRIOS E ÂNGULOS DE DES-TERRITORIALIZAÇÃO.

  2. Adriana Outubro 8th, 2008 18:39

    No Prefácio, comunica Deleuze que trata-se de uma visão construtivista dentro das “teorias das multiplicidades por elas mesmas”, onde o múltiplo “ passa a estado de substantivo. As multiplicidades são a própria realidade, não supõe nenhuma unidade, totalidade e não remetem a um sujeito.
    Na página 12, “as linhas e as velocidades mesuráveis constituem um AGENCIAMENTO. O livro é um agenciamento e por ser um agenciamento, está em” conexões com outros agenciamentos.”

    VOCÊ NÃO PERGUNTARÁ EM UM LIVRO:

    “o que quer dizer”: significado ou significante
    “não se buscará nada compreender em um livro”

    VOCÊ SE PERGUNTARÁ EM UM LIVRO:

    “com o que ele funciona?”
    “em conexão com o que ele faz ou não passar intensidades?”.
    “em que multiplicidades ele se introduz e metamorfoseia a sua?
    “com que corpos sem órgãos eles faz corrigir o seu?”.

  3. Adriana Outubro 8th, 2008 18:53

    NOTAS

    1. Em Conversações da Editora 34, Gilles Deleuze na página 43 diz o seguinte:

    __A história certamente é muito importante. Mas quando você toma qualquer linha de pesquisa, ela é histórica, numa parte de seu percurso, em certos lugares, mas também a- histórica, trans-histórica… Em Mille Plateaux, os “ devires” têm muito mais importância que a história. Não é absolutamente a mesma coisa. …”

    No mesmo livro, na página 211:

    “ … há duas maneiras de considerar o acontecimento, uma consiste em passar ao longo do acontecimento, recolher dele sua afetação na história, o acontecimento e o apodrecimento na história, mas outra consiste em remontar o acontecimento, em instalar-se nele como num devir em nele rejuvenescer e envelhecer em um só tempo, em passar por todos os conhecimentos ou singularidades. O devir não é história; a história designa somente o conjunto das condições, por mais recentes que sejam das quais desvia-se a fim de “devir” Isto é, de criar algon novo. É exatamente o que Nietzsche chama de Intempestivo. Maio de 68 foi a manifestação, a irrupção de um devir em estado puro.”

    2. No dicionário Houaiss , na página 1509 Hecceidade. Filosofia. No pensamento de Duns Scotus (1265- 1308), o carater particular, individual, único de um ente, que o distingue de todos os outros ;ecceidade, ipseidade. O termo foi recuperado no S.XX pelo Heideggarismo .

    3. Em contraposição ao modelo árvore.

    4. Zonas de intensidades contínuas.

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