Arquivo de 8 de Outubro de 2008
Piruetas perceptivas

“Um livro não tem objeto nem sujeito; é feito de matérias diferentemente formadas, de datas e velocidades muito diferentes. Desde que se atribui um livro a um sujeito, negligencia-se este trabalho das matérias e a exterioridadede suas correlações. Fabrica-se um bom Deus para movimentos geológicos. Num livro, como em qualquer coisa, há linhas de articulação ou segmentaridade, estratos, territorialidades, mas também linhas de fuga, movimentos de desterritorialização e desestratificação. As velocidades comparadas de escoamento, conforme estas linhas, acarretam fenômenos de retardamento relativo, de viscosidade ou, ao contrário, de precipitação e de ruptura. Tudo isto, as linhas e as velocidades mensuráveis, constitui um Agenciamento. Um livro é um tal agenciamento e, como tal, inatribuível.”
(Deleuze & Guattari . Mil platôs)
Depois que descobrimos a idéia de Agenciamento de Deleuze e Guattari e a Marly teve a idéia “rizomática” de transformá-la em uma categoria do nosso blog, minha percepção tem dado algumas piruetas inusitadas no espaço-tempo .
Desafiada por essa categoria, já consigo perceber que um mesmo texto pode ser agenciado em diversas categorias; me ocorreu que alguns textos – que leio e escrevo - podem ser inseridos em cenários, diálogos, itinerância, por exemplo e por isso o título Mil Platôs começa a ganhar para mim um sentido de orientação, mais experencial.
Agora, quando leio alguns bons autores como Machado de Assis e José Saramago, para citar os últimos lidos (lembrei também de Borges!) parece que estou reconhecendo esse movimento na escrita deles. E´ incrível como uma nova percepção (no caso, cognitiva - se é que alguma delas pode deixar de sê-lo) pode nos conduzir a um redimensionamento do que já estava “conhecido” – e por mais que isso pareça senso comum , o maravilhamento de cada descoberta é sempre singular.
Assim é que capturei no blog de José Saramago o texto Sobre Fernando Pessoa, em Cadernos de Saramago, que dialoga comigo na idéia de agenciamento, com o conto O espelho de Machado de Assis, com a pesquisa sobre o que seja escrever, que estamos focando e com Mil Platôs:
“Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.”
TCris
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