Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo de Outubro de 2008

A crise econômica global

Diante da crise econômica global - devido à transformação da economia em um verdadeiro “cassino financeiro” - que anuncia uma recessão aparentemente incontornável, é importante resgatar as vozes de economistas que vêm questionando o modelo atual, propondo visões de desenvolvimento econômico voltadas ao bem-estar social e a uma distribuição mais eqüitativa das riquezas, de maneira sustentável.

Manfred Max-Neef, por exemplo, economista chileno, desenvolveu teses que chamou de economia descalça e economia em escala humana. Em um artigo de 2004, intitulado Do conhecimento ao entendimento: idas e vindas, ele desenvolve uma tese que merece ser compartilhada:

Por que estamos onde estamos?

A vida é uma infindável seqüência de bifurcações. A decisão que tomo implica todas as decisões que não tomei. O caminho que escolho é parte de todos os caminhos que não escolho. Nossa vida é, inevitavelmente, uma permanente escolha por uma dentre uma infinidade de possibilidades ontológicas. O fato de que eu estava num determinado lugar, num dado momento no tempo, quando determinada situação ocorreu ou determinada pessoa apareceu, talvez tenha tido um efeito decisivo no resto de minha vida. Poucos minutos antes ou depois, ou poucos metros adiante em alguma direção, talvez pudessem determinar uma bifurcação diferente e, assim, uma vida completamente diferente. (…)

O que vale para as vidas individuais também vale para as comunidades e para as sociedades. O que se chama Civilização Ocidental é o resultado de suas bifurcações. Nós somos o que somos, mas poderíamos ter sido o que não somos.

Ele menciona algumas dessas bifurcações decisivas, dentre as quais destaco:

Continuamos sob a sedução irresistível de Galileu e Newton, e não escolhemos navegar pela rota da ciência de Goethe. Sentimento, intuição, consciência e espiritualidade continuam banidos dos interesses da ciência, apesar, sem dúvida, das novas luzes lançadas pelo campo da física quântica. O ensino de economias convencionais, tão incrível quanto retumbante, exigindo ser um “valor livre”, é um evidente exemplo em questão. Uma disciplina em que a matemática torna-se um fim em si mesma, ao invés de uma ferramenta, e segundo a qual apenas o que pode ser medido é importante, gerando modelos e interpretações teoricamente atraentes, mas totalmente divorciados da realidade.

(…) O caminho está dado. (…) e à rota navegada atribuímos o sucesso espetacular e seus feitos. (…) A navegação, sem dúvida, foi fascinante e espetacular. Há muito a se admirar nela. No entanto, se a esquizofrenia, a depressão e o narcisismo agora são espelhos da nossa realidade existencial, isto é porque, de repente, nos encontramos num mundo de confusão. Neste mundo de desencantamento, no qual o progresso torna-se paradoxal e absurdo e a realidade tão incompreensível…

Aonde chegamos?

Chegamos a um ponto de nossa evolução humana no qual conhecemos um bocado, mas entendemos muito pouco. Nossa navegação escolhida é pilotada pela razão, levando-nos ao porto do conhecimento. Nunca, em toda a nossa existência, acumulamos mais conhecimento que durante os últimos cem anos. Estamos celebrando a apoteose da razão, mas em meio a essa esplêndida celebração, repentinamente temos o sentimento de que alguma coisa está perdida.

(…) Enfim, chegamos a um ponto no qual, finalmente, tornamo-nos conscientes de que o conhecimento não é suficiente, e que temos que aprender como sustentar o entendimento para alcançar a integralidade do nosso ser.

Nós, talvez, estejamos começando a compreender que o conhecimento sem o entendimento é vazio, e que o entendimento sem o conhecimento é incompleto. Portanto, nós precisamos aceitar que a navegação em que estamos tem de ser abandonada. Mas para que isto aconteça, temos de encarar o grande desafio da linguagem da mudança.

(…) Foi somente no século XX que a linguagem dominante era o econômico, especialmente durante sua segunda metade. (…) O fim dos anos 20 e começo dos anos 30 foi o tempo que chamamos da grande depressão, com a emergência da economia keynesiana. A linguagem keynesiana é (…) resultado da crise, tendo a capacidade de interpretar essas crises bem como sua superação. É, de novo, uma linguagem (ou melhor, uma sub-linguagem) coerente com o período histórico.

A próxima sub-linguagem acontece durante os anos 50 e 60, com a emergência da chamada linguagem desenvolvimentista. Uma linguagem do otimismo, utopia e felicidade. Economistas se manifestavam, naqueles dias, dominados pelo sentimento de que, enfim, havíamos descoberto como promover o verdadeiro desenvolvimento e a superação da pobreza no mundo. (…) Seja como for, o que deve ser salientado é que, embora as metas não tenham sido plenamente atingidas, muitas coisas, naquela década, mudaram de uma maneira positiva. Enfim, uma linguagem parcialmente coerente com os desafios históricos.

E chegamos às últimas três décadas do século XX com a emergência do discurso neoliberal. Uma linguagem que dominou durante um período no qual a pobreza no mundo cresceu dramaticamente, com dívidas que arrebentaram muitas das economias nacionais e geraram uma brutal superexploração dos povos e dos recursos naturais, com a destruição de ecossistemas e da biodiversidade atingindo níveis desconhecidos na história humana, além da acumulação dos recursos financeiros em mãos de tão poucos que chega a proporções obscenas. Os efeitos desastrosos dessa linguagem, absolutamente incoerentes com as mudanças históricas, estão claros para quem quiser ver, enquanto que os que decidem e controladores do poder preferem olhar na direção oposta e agarrar-se a receitas pseudo-religiosas.

Aonde chegaremos a partir daqui?

(…) Talvez tenha chegado o momento de parar e pensar. Agora nós temos a oportunidade de analisar, com verdadeira honestidade, o mapa de nossa navegação, com todos os seus azares e sucessos, com todas as suas tragédias e glórias. E quem sabe vislumbrar o mapa alternativo da rota ainda não navegada e, entre as suas orientações, escolher aquela que pode nos resgatar de nossa confusão existencial.

(…) Nenhuma sustentabilidade (que, obviamente, é requerida pelo entendimento) pode ser conseguida sem uma mudança de linguagem. Uma nova linguagem que abra a porta do entendimento; não a linguagem do poder e dominação, mas a linguagem que emerge do fundo da nossa autodescoberta como parte inseparável da inteireza que está na origem do milagre da vida. Se conseguirmos provocar tal mudança, talvez tenhamos experimentado a satisfação de fazer surgir um novo século digno de nele vivermos.

Estamos diante de uma nova bifurcação. Qual será a nossa escolha?

Marly

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Sagrados desejos

roda do arco   ris 1 - roda do arco   ris 1

Diálogo no Skype:

M - Hiero-formaçao… Formação do Sagrado…
TC - Aventurosa formação - que expressão linda!
M - É uma dimensão da formação nem sempre considerada.
TC - Adoro as pessoas ousadas que abrem trilhas… Pensei na imagem da trilha, de bicicleta…
M - Mas como ele diz, esse é um caminho de realização, mas também de ilusões e aprisionamentos…
TC - Todos os caminhos são de ilusão e de aprisionamento se detemos a caminhada.
M - Veja como ele fala de uma relação pessoal com o sagrado, sem necessariamente passar pelas instituições religiosas. Esse tema é muito interessante, porque poderíamos falar de aproximações do sagrado, relacionadas a diferentes níveis de consciência.
TC - Sim… É que há certas linguagens que soam mais familiares à nossa experiência. Por isso a diversidade é importante.
M - Aí entra o Deleuze… Multiplicidades… Sair das hegemonias… Abraçar a diversidade.
TC - Veja que quaisquer que sejam as descrições sobre o processo, com ângulos, relevos ou linguagens diversas, todos convergem para o próprio processo.
M - Acho que esse reconhecimento vai se dando na construção. O devir… sempre o devir… traz essa possibilidade.
TC - Sim… Fico pensando na maravilha que é o (s) exato(s) instante(s) em que percebemos o sagrado.
M – É como uma explosão!
TC - Quando as pessoas que falam, vivem o sagrado, elas irradiam a própria dimensão da sacralidade no que falam… Lembro de Leloup, Pineau, Ubiratan e do Barbier também…
M - Agora pensei que o acesso ao corpo sensível pode ser uma forma de encontrar o sagrado em nós. Esses processos, para mim, não acontecem em todas as dimensões do ser ao mesmo tempo. Ora uma, ora outra vão atingindo mais clareza, mas sempre resta alguma que não foi percebida e temos que voltar à obra nessa dimensão.
TC - Sim… Isso nos faz vivenciar nossa própria complexidade e para isso precisamos aprender a transitar com mais consciência pela nossa multidimensionalidade. E quando penso nisso, penso naquele comentário do Danis Bois sobre a nossa pobreza perceptiva, que precisa ser trabalhada.
M - Temos que aprender a dar passagem ao que se passa conosco…. E me lembro do Nômade de Deleuze.
TC - Essa construção talvez exija que busquemos essas sínteses: entre o que queremos e não queremos mais.
M - E aí entramos na esfera do desejo… Por isso eu pus o texto no blog. Como vemos essa questão do desejo?
TC - Fico pensando que essa questão do desejo não é facilmente reconhecida… As pessoas não reconhecem o desejo nessa dimensão interior de poder escolher - isso talvez seja difícil mesmo.
M - A maneira como Deleuze fala do desejo abriu novas pistas para mim. Desejo como construção de agenciamentos. O desejo nos mobiliza a estabelecer novas ligações, novas alianças… E as novas alianças retroalimentam o desejo. O desejo não é minha propriedade, não é apenas meu, mas envolve os outros e o mundo.
TC - Mas eu tenho uma participação nele… Todos têm e ampliam o desejo.
M - Sim, com certeza, mas ele foi construído com a participação de outras coisas também. Aliás, tudo é construído com participação de muitas coisas… que ignoramos. E desvelar essa participação faz parte do processo de autoformação, que de certa maneira, é sempre em co-formação… Quando tomamos consciência disso.
TC - Como será que o desejo de Deleuze dialoga com o desejo de Lacan?
M - Agora vc me pegou… Não tenho a mínima idéia! Nunca me interessei muito por Lacan, mas é uma ligação possível.
TC - Vou propor essa questão para Bety Saporiti… Quem sabe ela topa estabelecer esse diálogo aqui no Blog da Companhia?

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CelulaMATER apresenta “O Labirinto do Fauno” - Olinda/Recife - PE

O labirinto do Fauno - O labirinto do Fauno

Origraffiti - Dobrinhas texturizadas com técnica de Graffiti - Eva Duarte, Evil e Azul.

Confira todo cenário montado pelo rizomático fotógrafo Ghuga Távora e parceiros!

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A Companhia de Aprendizagem e Pascal Galvani encontram-se em Brasília

O 3º Congresso Internacional Transdisciplinaridade, Complexidade e Eco-formação ocorrido na Universidade Católica de Brasília, no período de 2 a 5 de setembro de 2008, contou com a presença de grandes nomes da Transdisciplinaridade, como Edgar Morin, Ubiratan D´Ambrosio, Pascal Galvani, Raul D. Motta, entre outros.

O Congresso que versou sobre FUNDAMENTOS, PESQUISAS E PRÁTICAS teve como proposta discutir fundamentos transdisciplinares a partir de aspectos ontológicos, epistemológicos e metodológicos. Seus objetivos:

- Aprofundar estudos e pesquisas sobre Transdisciplinaridade, Complexidade e Ecoformação no campo educacional;
- Mobilizar os educadores para a relevância de estudos e pesquisas nestas áreas, mediante a socialização de experiências no âmbito da educação básica, média e superior;
- Compartilhar experiências inovadoras no âmbito da educação fundamental, média e superior sob o olhar complexo, transdisciplinar e ecoformador.

Um dos pontos altos do Congresso foi a palestra proferida por Pascal Galvani que tinha como título: ¿Qué formación para los formadores transdisciplinares ? Elementos para una metodología reflexiva dialógica. Este é um dos temas centrais de reflexão da Companhia de Aprendizagem, que esteve representada por Alzira Maria Ramos e Heloisa H. Steffen que apresentaram seus respectivos trabalhos na Sessão de Pôster do Congresso.

Acompanhando Pascal Galvani, estava Ana Cecília Espinosa Martinez, Diretora Acadêmica do Centro de Estudos Universitários ARKOS – México, que publica a Revista VISIÓN DOCENTE CON-CIENCIA . Segundo Ana Cecília, esta revista tem como proposta difundir artigos sobre Transdisciplinaridade e Complexidade e tem contado com colaboradores como Ubiratan D’Ambrosio, Basarab Nicolescu, Gaston Pineau, Pascal Galvani, René Barbier, Américo Sommerman, entre outros.

Brasilia  44  1 - Brasilia  44  1

Da esquerda para a direita: Ana Cecília E. Martinez, Heloisa H. Steffen, Alzira Maria Ramos e Pascal Galvani.

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Itinerância contínua

mundo verde - rachelstar7.blogspot.com/2008_08_01_archive.html

Pois é!
Enquanto a Mônica se prepara para Santiago de Compostella, peregrina que é, vai aqui e ali fazendo mais alguns trajetos como essa participação no programa Sempre um Papo – no ultimo dia 14 de outubro.

O tema em pauta abordou questões fundamentais : Qual a importância de preservar o meio ambiente? Qual é o nosso papel perante a crise sócio-ambiental pela qual o mundo está passando? Como podemos começar as mudanças no nosso dia-a-dia?

Segundo Mônica, somos co-responsáveis, de uma forma ou de outra, pela crise sofrida pelo meio ambiente, e por isso, é nosso papel refletir e aguçar nosso senso crítico e criatividade para descobrir onde cada um pode fazer diferença e construir uma sociedade mais justa. Diante do atual cenário, ela conversou sobre como ajudar a criar meios de começar a trabalhar a favor do meio ambiente e de um mundo mais solidário.

Monica Osório Simons é especialista em Educação Ambiental. Membro da Equipe de Coordenação da Companhia de Aprendizagem do Centro de Educação Transdisciplinar; Mestre em Educação, Especialista em Educação Ambiental , Bióloga e Veterinária. Docente de Educação Ambiental do Centro Universitário SENAC em diversos cursos técnicos, de graduação e pós-graduação e na Pós-graduação de Tecnologia em Gestão Ambiental da FAAP; Consultora do Programa de Eco-profissionalização para Jovens da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica IF/UNESCO - Núcleo Guarulhos; Educadora sócio-ambiental da Prefeitura de Guarulhos desde 1986; e no Projeto Escolas Promotoras de Saúde da Secretaria Municipal da Saúde. Participa da Coordenação da Companhia de Aprendizagem desde 2003. Contatos ceag@terra.com.br

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Desejar é construir um agenciamento

Sempre gostei de assistir ou ler entrevistas de um autor sobre a sua obra. Ouvir a voz, as pausas, observar a gesticulação, a expressão facial, o brotar da resposta no instante… Saio com uma sensação de maior proximidade e, ao mesmo tempo, instigada pelo não dito, pelo que ficou apenas sugerido despertando o desejo de compreender melhor o que ele propõe.

No Abecedário de Gilles Deleuze (vídeo da entrevista realizada por Claire Parnet – 1988), ele fala sobre sua concepção de desejo no livro Anti-Édipo:

Beleza da mulher - Beleza da mulher

“Queríamos dizer a coisa mais simples do mundo: que até agora vocês falaram abstratamente do desejo, pois extraem um objeto que é, supostamente, objeto de seu desejo. Então podem dizer: desejo uma mulher, desejo partir, viajar, desejo isso e aquilo. E nós dizíamos algo realmente simples: vocês nunca desejam alguém ou algo, desejam sempre um conjunto. Não é complicado. Nossa questão era: qual é a natureza das relações entre elementos para que haja desejo, para que eles se tornem desejáveis?
E ele complementa que, quando uma pessoa diz que deseja algo, uma roupa, por exemplo, evidentemente ela não deseja tal roupa em abstrato, mas dentro de um contexto de vida dela. E esse seu desejo vai se organizar em relação ao ambiente, aos seus amigos, à sua profissão, etc. “Nunca desejo algo sozinho, desejo bem mais… Também não desejo um conjunto, desejo em um conjunto”.

Para ele, não há desejo que não corra para um agenciamento. E o termo abstrato que corresponde ao desejo é construtivismo. “Desejar é construir um agenciamento, construir um conjunto, conjunto de uma saia, de um raio de sol (…) construir uma região, é realmente agenciar. (…) Ora, cada um de nós passa seu tempo construindo. Cada vez que alguém diz: desejo isso, quer dizer que ele está construindo um agenciamento, nada mais…”.

Ele diz que há quatro componentes de agenciamento:

1. Um agenciamento remete a estados de coisas: “que cada um encontre estados de coisas que lhe convenha. Para beber… gosto de um bar, não gosto de outro, alguns preferem certo bar, etc.”

2. Nas dimensões do agenciamento há enunciados, tipos de enunciados: “e cada um tem seu estilo, há um certo modo de falar, andam juntos. No bar, por exemplo, há amigos e há uma certa maneira de falar com os amigos, cada bar tem seu estilo. Digo bar, mas vale para qualquer coisa”.
“É interessante: a História é feita disto, quando aparece um novo tipo de enunciado? Por exemplo, na revolução russa, os enunciados do tipo leninista: quando eles aparecem, como, em que forma? Em 68, quando apareceram os primeiros enunciados ditos de 68? É bem complexo”.

3. E implica territórios: “cada um com seu território, há territórios. Mesmo numa sala, escolhemos um território. Entro numa sala que não conheço, procuro o território, lugar onde me sentirei melhor”.

4. E há processos que devemos chamar de desterritorialização: “o modo como saímos do território”.

“Um agenciamento tem quatro dimensões: estados de coisas, enunciações, territórios, movimentos de desterritorialização. E é aí que o desejo corre…”

Fiquei pensando no processo da Companhia, na auto/hetero/co/ecoformação e no desejo conjunto como construção desse projeto-agenciamento. Faz sentido…

Marly

Transcrição da entrevista

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Piruetas perceptivas

Cirque du Soleil - Cirque du Soleil

“Um livro não tem objeto nem sujeito; é feito de matérias diferentemente formadas, de datas e velocidades muito diferentes. Desde que se atribui um livro a um sujeito, negligencia-se este trabalho das matérias e a exterioridadede suas correlações. Fabrica-se um bom Deus para movimentos geológicos. Num livro, como em qualquer coisa, há linhas de articulação ou segmentaridade, estratos, territorialidades, mas também linhas de fuga, movimentos de desterritorialização e desestratificação. As velocidades comparadas de escoamento, conforme estas linhas, acarretam fenômenos de retardamento relativo, de viscosidade ou, ao contrário, de precipitação e de ruptura. Tudo isto, as linhas e as velocidades mensuráveis, constitui um Agenciamento. Um livro é um tal agenciamento e, como tal, inatribuível.”

(Deleuze & Guattari . Mil platôs)

Depois que descobrimos a idéia de Agenciamento de Deleuze e Guattari e a Marly teve a idéia “rizomática” de transformá-la em uma categoria do nosso blog, minha percepção tem dado algumas piruetas inusitadas no espaço-tempo .

Desafiada por essa categoria, já consigo perceber que um mesmo texto pode ser agenciado em diversas categorias; me ocorreu que alguns textos – que leio e escrevo - podem ser inseridos em cenários, diálogos, itinerância, por exemplo e por isso o título Mil Platôs começa a ganhar para mim um sentido de orientação, mais experencial.

Agora, quando leio alguns bons autores como Machado de Assis e José Saramago, para citar os últimos lidos (lembrei também de Borges!) parece que estou reconhecendo esse movimento na escrita deles. E´ incrível como uma nova percepção (no caso, cognitiva - se é que alguma delas pode deixar de sê-lo) pode nos conduzir a um redimensionamento do que já estava “conhecido” – e por mais que isso pareça senso comum , o maravilhamento de cada descoberta é sempre singular.

Assim é que capturei no blog de José Saramago o texto Sobre Fernando Pessoa, em Cadernos de Saramago, que dialoga comigo na idéia de agenciamento, com o conto O espelho de Machado de Assis, com a pesquisa sobre o que seja escrever, que estamos focando e com Mil Platôs:

“Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.”

Confira o texto na íntegra!

TCris

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