360 graus de horizonte
Volto de uma viagem para uma fazenda no Mato Grosso do Sul impregnada pela experiência vivida no contato com o Cerrado. Eu já havia morado, há um bom tempo atrás, na região do cerrado, em Três Marias - MG. E reencontrei o mesmo encantamento que tive anteriormente com a amplitude desse horizonte de 360 graus. O olhar vai longe, sem obstáculos. A linha do encontro entre a terra e o céu fica mais definida. A abóbada celeste parece mais próxima, como que abraçando a terra. E o pôr de sol que incendeia o horizonte parece ter um som que atrai os pássaros convidando-os para a dança de despedida do dia. É como se fosse ouvido lá de longe o Canto Guarani dizendo: A terra sem males, essa é a terra boa, essa é a terra áurea e perfeita. Chegamos lá mediante ao vôo. Ali também se dança.
É impossível não participar desse momento, em reverência. E ir vendo, pouco a pouco a entrada das estrelas. No alto da noite as estrelinhas piscam, puxando fios, e dançam nos fios cachos de poetas, diz Guimarães Rosa. São tantas e há tanto tempo não vistas, encobertas que são pela névoa da poluição e pelas luzes artificiais da cidade, que dá vontade de deitar no chão e deixar o olhar viajar cada vez mais longe por esse imenso cosmos. E me lembro do poema de Cora Coralina:
Melhor do que a criatura,
fez o criador a criação.
A criatura é limitada.
O tempo, o espaço,
normas e costumes.
Erros e acertos.
A criação é ilimitada.
Excede o tempo e o meio.
Projeta-se no Cosmos.A parte triste desta viagem foi a constatação de que as criaturas ainda não estão percebendo o valor inestimável desse bioma cerrado, que vem sendo progressivamente devastado pelo desmatamento, pela monocultura, pelas carvoarias e minerações. A criatura é mesmo limitada, principalmente quando trata a natureza como propriedade sua e não percebe o alto custo ambiental e vital de uma atividade predatória que só visa o lucro corporativo ou pessoal. Mas as vozes que defendem a preservação e recomposição do cerrado continuam gritando e cada vez mais alto. Algumas iniciativas vão sendo concretizadas. É preciso acordar antes que seja tarde demais.
E depois de tanto espaço, silêncio e calma foi difícil voltar para esta cidade maluca. São Paulo é uma cidade-chapéu, disse uma amiga de Três Marias - MG. Por que cidade-chapéu? Porque é tudo tapadinho!
Marly
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