Arquivo de 29 de Agosto de 2008
Intraníveis do diálogo
Intraníveis do diálogo
ou da experiência do paradigma do sensível
(…) ”E´ graças a uma relação da consciência e
do sentir com sua experiência que a pessoa se descobre a si mesma como sujeito”
BOIS, Danis; AUSTRY, Didier. A emergência do paradigma do sensível.
Foi ontem, que eu cheguei à página 17 da segunda leitura do artigo “A emergência do paradigma do sensível”. Parei e respirei fundo, deixando ressoar as palavras do texto: (…) “Para nós, uma pessoa assume o estatuto de sujeito quando cuida da presença em relação a si mesma e descobre, em plena consciência, as vivências internas ligadas à presença interior do Sensível…. É considerado como vivência todo fenômeno sentido, percebido e conscientizado pelo sujeito em tempo real.”
Aqui, o vento de agosto assolava a tarde enferruscada de sábado; também é bonito esse vento girante, pensei _ também tem a sua função como tudo que é vivo. Por causa do vento, tive o impulso de recolher minhas orquídeas floridas, do quintal para a varanda, para protege-las. Mas, instantâneamente, lembrei que elas estão no lugar que lhes é próprio e rememorei o compromisso que estou mantendo com a primeira palavra do ensinamento hesicasta - a oração do coração - sobre a qual ando meditando: Assenta-te.
Assentar. Manter o estado de imobilidade interior, deixar ser o que é, exercício a que tenho me dedicado ultimamente. A leitura e estudo do instigante artigo “A emergência do Paradigma do Sensível” feito durante toda esta última semana, os e-mails divulgando-o para alguns amigos, a proposta ao grupo de estudos para sua leitura, como impulso para nosso próximo trabalho, fazem parte do movimento inverso e complementar, a mobilidade.
(…)”o âmago da experiência [da imobilidade? pergunto-me ] orienta a atenção e a atitude do sujeito e o predispõe a certos conteúdos de experiência e não a outros [da mobilidade?].”
A experiência orientadora de todo esse movimento imobilidade-mobilidade, pode ser traduzida pelo mote Assenta-te, que traduz uma dinâmica de imobilidade. A partir dela, entrei em contato com a leitura de diferentes textos, todos ressoantes entre si, até chegar a este citado.
Este é um relato parcial, pois ainda não cheguei ao final da segunda leitura e o meu depoimento é sobre a experiência vivenciada como um todo e não apenas sobre o texto; é meu retorno reflexivo sobre a experiência, como propõe Galvani e como o utilizamos na Companhia de Aprendizagem. Aliás, encontrei nessa leitura várias ressonâncias com a consciência reflexiva da autos, de Galvani. Mas encontrei também algumas inferências que remetiam à minha própria experiência intra e inter subjetivas, ou como pontua o texto:
(…)”Já a relação do Sensível, se ela nos faz ver efetiva e permanentemente essa noção de cobertura e de mistura de duas forças opostas, cria um processo dinâmico contínuo que potencializa os contrários para fazer emergir uma terceira dimensão, abertura criativa de novos sentidos. Por exemplo, quando o sujeito percebe seu movimento interno, ele o percebe no seio da imobilidade de seu corpo; a experiência desse quiasma [entrelaçamento] lhe revela uma nova natureza de presença dele mesmo, a imobilidade revelando-lhe sua globalidade e a mobilidade mostrando-lhe uma profundidade desconhecida. “
A partir do Assenta-te como parâmetro da minha interioridade, em repouso fiz a leitura do texto. Depois, esbocei uma nova proposta de trabalho grupal, articulei os possíveis interessados nela, prescrutei a mim mesma sobre a relação desta proposta com a meu propósito pessoal, sugeri o estudo do citado texto como aporte pra desenvolve-la e enviei o texto aos que se manifestaram, numa seqüência de ações mobilizadoras.
Então, no repouso do sábado à tarde, na rede, ouvindo o vento assobiar lá fora, retornei à dinâmica da imobilidade, que permitiu esse trajeto… (…)”Para nós, o termo existência só é empregado de maneira pertinente e apropriada quando ele descreve o que sente um sujeito ativo e presente aos efeitos, na interioridade de seu corpo, daquilo que ele vive. Nesta visão, não há (re)conhecimento de si sem o sentimento interior e contínuo de uma coexistência viva e atual de si e de seu corpo, de si dentro do seu corpo. Assim, o corpo sensível é lugar de emergência perpétua de uma forma singular de ligação entre si e si, que se torna o primado da ligação entre si e o mundo.”
E depois disso tudo, experimento finalmente, a descoberta de um lampejo de compreensão da abordagem paradoxal de Yves Barel ! Mas essa já é outra história.
TCris
BOIS, Danis; AUSTRY, Didier. A emergência do paradigma do sensível. Revista @mbienteeducação, volume, número , Jan/Julho 008. Disponível em: http://www.cidadesp.edu.br/old/revista_educacao/index.. Acesso em 18.08.08
Sem comentários »360 graus de horizonte
Volto de uma viagem para uma fazenda no Mato Grosso do Sul impregnada pela experiência vivida no contato com o Cerrado. Eu já havia morado, há um bom tempo atrás, na região do cerrado, em Três Marias - MG. E reencontrei o mesmo encantamento que tive anteriormente com a amplitude desse horizonte de 360 graus. O olhar vai longe, sem obstáculos. A linha do encontro entre a terra e o céu fica mais definida. A abóbada celeste parece mais próxima, como que abraçando a terra. E o pôr de sol que incendeia o horizonte parece ter um som que atrai os pássaros convidando-os para a dança de despedida do dia. É como se fosse ouvido lá de longe o Canto Guarani dizendo: A terra sem males, essa é a terra boa, essa é a terra áurea e perfeita. Chegamos lá mediante ao vôo. Ali também se dança.
É impossível não participar desse momento, em reverência. E ir vendo, pouco a pouco a entrada das estrelas. No alto da noite as estrelinhas piscam, puxando fios, e dançam nos fios cachos de poetas, diz Guimarães Rosa. São tantas e há tanto tempo não vistas, encobertas que são pela névoa da poluição e pelas luzes artificiais da cidade, que dá vontade de deitar no chão e deixar o olhar viajar cada vez mais longe por esse imenso cosmos. E me lembro do poema de Cora Coralina:
Melhor do que a criatura,
fez o criador a criação.
A criatura é limitada.
O tempo, o espaço,
normas e costumes.
Erros e acertos.
A criação é ilimitada.
Excede o tempo e o meio.
Projeta-se no Cosmos.A parte triste desta viagem foi a constatação de que as criaturas ainda não estão percebendo o valor inestimável desse bioma cerrado, que vem sendo progressivamente devastado pelo desmatamento, pela monocultura, pelas carvoarias e minerações. A criatura é mesmo limitada, principalmente quando trata a natureza como propriedade sua e não percebe o alto custo ambiental e vital de uma atividade predatória que só visa o lucro corporativo ou pessoal. Mas as vozes que defendem a preservação e recomposição do cerrado continuam gritando e cada vez mais alto. Algumas iniciativas vão sendo concretizadas. É preciso acordar antes que seja tarde demais.
E depois de tanto espaço, silêncio e calma foi difícil voltar para esta cidade maluca. São Paulo é uma cidade-chapéu, disse uma amiga de Três Marias - MG. Por que cidade-chapéu? Porque é tudo tapadinho!
Marly
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