Ano Sabático

Vivemos o tempo da grande aceleração. É indiscutível que por meio da tecnologia nós ganhamos tempo, mas estamos cada vez mais impacientes, não toleramos esperar. Pois a vida nos impõe (e nós nos impusemos) cada vez mais coisas para fazer. E vivemos sob a pressão de responder imperiosamente às situações que se apresentam: tudo é para “ontem”. E os compromissos vão se acumulando, transformando o tempo em obstáculo às nossas verdadeiras aspirações.
Estamos pagando caro por nossas realizações materiais: a vida tornou-se mais ampla, cheia de recursos e estímulos, mas, ao mesmo tempo, mais complicada e extenuante.
Como ultrapassar essa condição, ser apaixonadamente vivos, como diz M. Randon, se nos deixamos levar pela rotina, que pode trazer alguma segurança ou conforto, mas que por ser repetitiva e sem sentido acaba sendo ineficaz e enfadonha? Como apreender a vida, os processos de mudança e o próprio sentido de nossa trajetória, de nossas necessidades de transformação? Como conquistar uma temporalidade que permita a emergência de um tempo próprio, de uma nova equação temporal?
Uma nova atitude e uma nova perspectiva pedem um verdadeiro recomeço: retomar o melhor do passado, estar atento ao momento presente e deixar emergir os sonhos para o futuro.
Não é à toa que a instituição do Ano Sabático vem se disseminando em diferentes contextos: pessoais, universitários e empresariais… Tendo sua origem no Antigo Testamento (Levítico 25,2-7), é um preceito que nos faz relembrar a necessidade de respeitar os diferentes ritmos, os diferentes ciclos que regem a vida do ser humano e da natureza. Ao mesmo tempo, ele nos recorda que a terra e o homem não são máquinas de produção, que o trabalho incessante leva a uma escravidão consentida e que nem o ser humano nem a terra podem ser objetos de dominação.
O Ano Sabático se anuncia como tempo de descanso, mas não é o descanso pelo descanso, e sim um descanso funcional e dinâmico, pois continuamos criativos. Ele nos permite entrar em uma sintonia mais consciente com o ritmo trabalho/descanso, socialização/solidão, expressão/silêncio… E a estabelecer um contato mais estreito com nossas necessidades, desejos e apegos. Ele nos ajuda a perceber as diferentes maneiras de habitarmos os espaços - nos quais vivemos e nem sempre percebemos viver - clareando a demarcação de um espaço pessoal, de nosso próprio lugar nos diferentes locais e grupos com os quais nos relacionamos. Podemos, então, estar abertos para ver cada momento e cada encontro como precursor de algo novo, o que sempre provoca alguma ansiedade, mas que pode estar aliada ao prazer da expectativa do que virá.
Talvez o maior desafio seja estender a experiência vivida no Ano Sabático aos anos que se seguirem a ele e, numa espécie de peregrinação interior/exterior contínua, estar conscientes do trânsito e da transitoriedade das coisas, percebendo e valorizando cada passo no caminho e o tempo necessário para essa caminhada.
Marly
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Uma resposta para “ Ano Sabático ”
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Diz Eduardo Gianetti , no livro O valor do Amanhã : “ Ninguém melhor do que Valéry, creio eu, investigou a realidade dessa questão – o desaparecimento do que ele chama “tempo livre” – nas condições da vida moderna:
“ O tempo livre que tenho em mente não é o lazer tal como normalmente entendido. O lazer aparente ainda permanece conosco e, de fato, está protegido e propagado por medidas legais e pelo progresso mecânico. As jornadas de trabalho são medidas e sua duração em horas regulada por lei. O que eu digo, porém, é que o nosso ócio interno, algo muito distinto do lazer cronometrado, está desaparecendo. Estamos perdendo aquela paz essencial nas profundezas do nosso ser, aquela ausência sem preço, na qual os elementos mais delicados da vida se renovam e se confortam, ao passo que o ser interior é de algum modo liberado de passado e futuro, de um estado de alerta presente, de obrigações pendentes e expectativas à espreita. Nenhuma preocupação, nenhum amanhã, nenhuma pressão interna, mas uma forma de repouso na ausência, uma vacuidade benéfica que traz a mente de volta à sua verdadeira liberdade, ocupada apenas consigo mesma. Livre de suas obrigações para com o saber prático e desonerada de qualquer preocupação sobre o porvir, ela cria formas tão puras como o cristal. Mas a demanda, a tensão, a pressa da existência moderna perturbam e destroem esse precioso repouso. Olhe para dentro e ao redor de si! O progresso da insônia é notável e anda pari passu com todas as outras modalidades de progresso.”
Como cantou o Caetano (Veloso) em Oração ao Tempo: “ E quando eu tiver saído/Para fora do teu círculo/Tempo tempo tempo tempo/Não serei nem terás sido/Tempo tempo tempo tempo… “ Pois é.
TCris