Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo de 18 de Agosto de 2008

Ano Sabático

tra spazio e tempo 1 2 - tra spazio e tempo 1 2

Vivemos o tempo da grande aceleração. É indiscutível que por meio da tecnologia nós ganhamos tempo, mas estamos cada vez mais impacientes, não toleramos esperar. Pois a vida nos impõe (e nós nos impusemos) cada vez mais coisas para fazer. E vivemos sob a pressão de responder imperiosamente às situações que se apresentam: tudo é para “ontem”. E os compromissos vão se acumulando, transformando o tempo em obstáculo às nossas verdadeiras aspirações.

Estamos pagando caro por nossas realizações materiais: a vida tornou-se mais ampla, cheia de recursos e estímulos, mas, ao mesmo tempo, mais complicada e extenuante.

Como ultrapassar essa condição, ser apaixonadamente vivos, como diz M. Randon, se nos deixamos levar pela rotina, que pode trazer alguma segurança ou conforto, mas que por ser repetitiva e sem sentido acaba sendo ineficaz e enfadonha? Como apreender a vida, os processos de mudança e o próprio sentido de nossa trajetória, de nossas necessidades de transformação? Como conquistar uma temporalidade que permita a emergência de um tempo próprio, de uma nova equação temporal?

Uma nova atitude e uma nova perspectiva pedem um verdadeiro recomeço: retomar o melhor do passado, estar atento ao momento presente e deixar emergir os sonhos para o futuro.

Não é à toa que a instituição do Ano Sabático vem se disseminando em diferentes contextos: pessoais, universitários e empresariais… Tendo sua origem no Antigo Testamento (Levítico 25,2-7), é um preceito que nos faz relembrar a necessidade de respeitar os diferentes ritmos, os diferentes ciclos que regem a vida do ser humano e da natureza. Ao mesmo tempo, ele nos recorda que a terra e o homem não são máquinas de produção, que o trabalho incessante leva a uma escravidão consentida e que nem o ser humano nem a terra podem ser objetos de dominação.

O Ano Sabático se anuncia como tempo de descanso, mas não é o descanso pelo descanso, e sim um descanso funcional e dinâmico, pois continuamos criativos. Ele nos permite entrar em uma sintonia mais consciente com o ritmo trabalho/descanso, socialização/solidão, expressão/silêncio… E a estabelecer um contato mais estreito com nossas necessidades, desejos e apegos. Ele nos ajuda a perceber as diferentes maneiras de habitarmos os espaços - nos quais vivemos e nem sempre percebemos viver - clareando a demarcação de um espaço pessoal, de nosso próprio lugar nos diferentes locais e grupos com os quais nos relacionamos. Podemos, então, estar abertos para ver cada momento e cada encontro como precursor de algo novo, o que sempre provoca alguma ansiedade, mas que pode estar aliada ao prazer da expectativa do que virá.

Talvez o maior desafio seja estender a experiência vivida no Ano Sabático aos anos que se seguirem a ele e, numa espécie de peregrinação interior/exterior contínua, estar conscientes do trânsito e da transitoriedade das coisas, percebendo e valorizando cada passo no caminho e o tempo necessário para essa caminhada.

Marly

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