Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo de Agosto de 2008

Intraníveis do diálogo

Intraníveis do diálogo
ou da experiência do paradigma do sensível

(…) ”E´ graças a uma relação da consciência e
do sentir com sua experiência que a pessoa se descobre a si mesma como sujeito”

BOIS, Danis; AUSTRY, Didier. A emergência do paradigma do sensível.

Foi ontem, que eu cheguei à página 17 da segunda leitura do artigo “A emergência do paradigma do sensível”. Parei e respirei fundo, deixando ressoar as palavras do texto: (…) “Para nós, uma pessoa assume o estatuto de sujeito quando cuida da presença em relação a si mesma e descobre, em plena consciência, as vivências internas ligadas à presença interior do Sensível…. É considerado como vivência todo fenômeno sentido, percebido e conscientizado pelo sujeito em tempo real.”

Aqui, o vento de agosto assolava a tarde enferruscada de sábado; também é bonito esse vento girante, pensei _ também tem a sua função como tudo que é vivo. Por causa do vento, tive o impulso de recolher minhas orquídeas floridas, do quintal para a varanda, para protege-las. Mas, instantâneamente, lembrei que elas estão no lugar que lhes é próprio e rememorei o compromisso que estou mantendo com a primeira palavra do ensinamento hesicasta - a oração do coração - sobre a qual ando meditando: Assenta-te.

Assentar. Manter o estado de imobilidade interior, deixar ser o que é, exercício a que tenho me dedicado ultimamente. A leitura e estudo do instigante artigo “A emergência do Paradigma do Sensível” feito durante toda esta última semana, os e-mails divulgando-o para alguns amigos, a proposta ao grupo de estudos para sua leitura, como impulso para nosso próximo trabalho, fazem parte do movimento inverso e complementar, a mobilidade.

(…)”o âmago da experiência [da imobilidade? pergunto-me ] orienta a atenção e a atitude do sujeito e o predispõe a certos conteúdos de experiência e não a outros [da mobilidade?].”

A experiência orientadora de todo esse movimento imobilidade-mobilidade, pode ser traduzida pelo mote Assenta-te, que traduz uma dinâmica de imobilidade. A partir dela, entrei em contato com a leitura de diferentes textos, todos ressoantes entre si, até chegar a este citado.

Este é um relato parcial, pois ainda não cheguei ao final da segunda leitura e o meu depoimento é sobre a experiência vivenciada como um todo e não apenas sobre o texto; é meu retorno reflexivo sobre a experiência, como propõe Galvani e como o utilizamos na Companhia de Aprendizagem. Aliás, encontrei nessa leitura várias ressonâncias com a consciência reflexiva da autos, de Galvani. Mas encontrei também algumas inferências que remetiam à minha própria experiência intra e inter subjetivas, ou como pontua o texto:

(…)”Já a relação do Sensível, se ela nos faz ver efetiva e permanentemente essa noção de cobertura e de mistura de duas forças opostas, cria um processo dinâmico contínuo que potencializa os contrários para fazer emergir uma terceira dimensão, abertura criativa de novos sentidos. Por exemplo, quando o sujeito percebe seu movimento interno, ele o percebe no seio da imobilidade de seu corpo; a experiência desse quiasma [entrelaçamento] lhe revela uma nova natureza de presença dele mesmo, a imobilidade revelando-lhe sua globalidade e a mobilidade mostrando-lhe uma profundidade desconhecida. “

A partir do Assenta-te como parâmetro da minha interioridade, em repouso fiz a leitura do texto. Depois, esbocei uma nova proposta de trabalho grupal, articulei os possíveis interessados nela, prescrutei a mim mesma sobre a relação desta proposta com a meu propósito pessoal, sugeri o estudo do citado texto como aporte pra desenvolve-la e enviei o texto aos que se manifestaram, numa seqüência de ações mobilizadoras.

Então, no repouso do sábado à tarde, na rede, ouvindo o vento assobiar lá fora, retornei à dinâmica da imobilidade, que permitiu esse trajeto… (…)”Para nós, o termo existência só é empregado de maneira pertinente e apropriada quando ele descreve o que sente um sujeito ativo e presente aos efeitos, na interioridade de seu corpo, daquilo que ele vive. Nesta visão, não há (re)conhecimento de si sem o sentimento interior e contínuo de uma coexistência viva e atual de si e de seu corpo, de si dentro do seu corpo. Assim, o corpo sensível é lugar de emergência perpétua de uma forma singular de ligação entre si e si, que se torna o primado da ligação entre si e o mundo.”
E depois disso tudo, experimento finalmente, a descoberta de um lampejo de compreensão da abordagem paradoxal de Yves Barel ! Mas essa já é outra história.

TCris

BOIS, Danis; AUSTRY, Didier. A emergência do paradigma do sensível. Revista @mbienteeducação, volume, número , Jan/Julho 008. Disponível em: http://www.cidadesp.edu.br/old/revista_educacao/index.. Acesso em 18.08.08

Victoire 1 - Victoire 1

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360 graus de horizonte

Volto de uma viagem para uma fazenda no Mato Grosso do Sul impregnada pela experiência vivida no contato com o Cerrado. Eu já havia morado, há um bom tempo atrás, na região do cerrado, em Três Marias - MG. E reencontrei o mesmo encantamento que tive anteriormente com a amplitude desse horizonte de 360 graus. O olhar vai longe, sem obstáculos. A linha do encontro entre a terra e o céu fica mais definida. A abóbada celeste parece mais próxima, como que abraçando a terra. E o pôr de sol que incendeia o horizonte parece ter um som que atrai os pássaros convidando-os para a dança de despedida do dia. É como se fosse ouvido lá de longe o Canto Guarani dizendo: A terra sem males, essa é a terra boa, essa é a terra áurea e perfeita. Chegamos lá mediante ao vôo. Ali também se dança.

É impossível não participar desse momento, em reverência. E ir vendo, pouco a pouco a entrada das estrelas. No alto da noite as estrelinhas piscam, puxando fios, e dançam nos fios cachos de poetas, diz Guimarães Rosa. São tantas e há tanto tempo não vistas, encobertas que são pela névoa da poluição e pelas luzes artificiais da cidade, que dá vontade de deitar no chão e deixar o olhar viajar cada vez mais longe por esse imenso cosmos. E me lembro do poema de Cora Coralina:

Melhor do que a criatura,
fez o criador a criação.
A criatura é limitada.
O tempo, o espaço,
normas e costumes.
Erros e acertos.
A criação é ilimitada.
Excede o tempo e o meio.
Projeta-se no Cosmos.

bioma cerrado 1 2 3 4 - bioma cerrado 1 2 3 4

A parte triste desta viagem foi a constatação de que as criaturas ainda não estão percebendo o valor inestimável desse bioma cerrado, que vem sendo progressivamente devastado pelo desmatamento, pela monocultura, pelas carvoarias e minerações. A criatura é mesmo limitada, principalmente quando trata a natureza como propriedade sua e não percebe o alto custo ambiental e vital de uma atividade predatória que só visa o lucro corporativo ou pessoal. Mas as vozes que defendem a preservação e recomposição do cerrado continuam gritando e cada vez mais alto. Algumas iniciativas vão sendo concretizadas. É preciso acordar antes que seja tarde demais.

E depois de tanto espaço, silêncio e calma foi difícil voltar para esta cidade maluca. São Paulo é uma cidade-chapéu, disse uma amiga de Três Marias - MG. Por que cidade-chapéu? Porque é tudo tapadinho!

Marly

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Interníveis

Estou relendo os textos enviados para publicação no Livro II – são fantásticos!

Nova Aurora - Galeria Barbara Meyer Elias

Em intertextualidade, eu, eles e os textos já conhecidos da memória, dialogamos:

PG _ Suspender a Consciência intencional…
JYL _ Era preciso reaprender a ser, simplesmente a ser – sem objetivo nem motivo. Meditar como uma montanha era a própria meditação do ser “do simples fato de ser”, antes de todo pensamento, de todo prazer, de toda dor.”
TC _ Do simples fato de ser…
PG _ Co-emergir …
JYL _ Meditar como uma montanha também tinha modificado o ritmo de seus pensamentos. Havia aprendido a “ver” sem julgar , como se ele desse a tudo que brota na montanha “o direito de existir”.
PG _ Atenção não-verbal…
TC _ Aprendizagem transformadora.

TCris

(Citação: Leloup, Jean Yves. Esinamentos sobre o hesicasmo. ed. Vozes)

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Ano Sabático

tra spazio e tempo 1 2 - tra spazio e tempo 1 2

Vivemos o tempo da grande aceleração. É indiscutível que por meio da tecnologia nós ganhamos tempo, mas estamos cada vez mais impacientes, não toleramos esperar. Pois a vida nos impõe (e nós nos impusemos) cada vez mais coisas para fazer. E vivemos sob a pressão de responder imperiosamente às situações que se apresentam: tudo é para “ontem”. E os compromissos vão se acumulando, transformando o tempo em obstáculo às nossas verdadeiras aspirações.

Estamos pagando caro por nossas realizações materiais: a vida tornou-se mais ampla, cheia de recursos e estímulos, mas, ao mesmo tempo, mais complicada e extenuante.

Como ultrapassar essa condição, ser apaixonadamente vivos, como diz M. Randon, se nos deixamos levar pela rotina, que pode trazer alguma segurança ou conforto, mas que por ser repetitiva e sem sentido acaba sendo ineficaz e enfadonha? Como apreender a vida, os processos de mudança e o próprio sentido de nossa trajetória, de nossas necessidades de transformação? Como conquistar uma temporalidade que permita a emergência de um tempo próprio, de uma nova equação temporal?

Uma nova atitude e uma nova perspectiva pedem um verdadeiro recomeço: retomar o melhor do passado, estar atento ao momento presente e deixar emergir os sonhos para o futuro.

Não é à toa que a instituição do Ano Sabático vem se disseminando em diferentes contextos: pessoais, universitários e empresariais… Tendo sua origem no Antigo Testamento (Levítico 25,2-7), é um preceito que nos faz relembrar a necessidade de respeitar os diferentes ritmos, os diferentes ciclos que regem a vida do ser humano e da natureza. Ao mesmo tempo, ele nos recorda que a terra e o homem não são máquinas de produção, que o trabalho incessante leva a uma escravidão consentida e que nem o ser humano nem a terra podem ser objetos de dominação.

O Ano Sabático se anuncia como tempo de descanso, mas não é o descanso pelo descanso, e sim um descanso funcional e dinâmico, pois continuamos criativos. Ele nos permite entrar em uma sintonia mais consciente com o ritmo trabalho/descanso, socialização/solidão, expressão/silêncio… E a estabelecer um contato mais estreito com nossas necessidades, desejos e apegos. Ele nos ajuda a perceber as diferentes maneiras de habitarmos os espaços - nos quais vivemos e nem sempre percebemos viver - clareando a demarcação de um espaço pessoal, de nosso próprio lugar nos diferentes locais e grupos com os quais nos relacionamos. Podemos, então, estar abertos para ver cada momento e cada encontro como precursor de algo novo, o que sempre provoca alguma ansiedade, mas que pode estar aliada ao prazer da expectativa do que virá.

Talvez o maior desafio seja estender a experiência vivida no Ano Sabático aos anos que se seguirem a ele e, numa espécie de peregrinação interior/exterior contínua, estar conscientes do trânsito e da transitoriedade das coisas, percebendo e valorizando cada passo no caminho e o tempo necessário para essa caminhada.

Marly

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Do Não saber

TC _Eu nesse momento preciso do silencio. Já entrei várias vezes no blog e acabo não escrevendo…penso: será que esse é o espaço para meu momento de silêncio e dúvidas? Talvez fosse bom inserir isso… nosso espaço experimental a ser cultivado.

M _ E vale a pena passar isso. Por isso eu comecei com o escrever… habitar a tela…. Como habitar esse espaço do blog? Ontem eu vi um filme no Canal Futura que me fez refletir. É um filme japones. Acho que se chama Arata. É um lugar que as pessoas vão após a morte. E cada uma tem que lembrar de algo de sua vida e escolher dessas lembranças uma que seria o lugar em que ela permaneceria eternamente.

TC _ Me lembrou o eterno retorno de Nietzche, mas no filme a idéia parece mais profunda!
M _ Olha que coisa: onde, em tudo que vivi, eu gostaria de permanecer eternamente?
TC _ Em tudo que vi…. e o que não fui capaz de ver?
M _ No exercício de lembrar para escolher, começam a surgir coisas que não tinham sido vistas, sentidas, percebidas…
Tc _ Tá vendo como não podemos apressar esse momento do não sei e do silencio?

Diálogo no skype, na hora do almoço de uma quinta-feira chuvosa de agosto

TCris
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Arte-poesia

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Escrever

Eu escrevo: eu habito a minha folha de papel, eu a invisto, eu a percorro.
Eu suscito brancos, espaços (saltos nos sentidos: descontinuidades, passagens, transições).

“J’écris: j’habite ma feuille de papier, je l’investis, je la parcours.
Je suscite des blancs, des espaces (sauts dans les sens: discontinuités, passages, transitions).” (Georges Perec - Espèces d’espaces )

Entro nesse novo espaço de respiração de idéias, de pulsação vital, dinamizada pelo movimento que vai ao encontro dos outros. Encontros sempre me soam como descobertas. Recentemente, descobri a obra de Georges Perec. E foi um maravilhoso encontro! Deixo uma pequena amostra graças a Cláudia Amico Pino, outra boa descoberta nas navegações.

Então… escrevo: habito a tela…

Marly

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o futuro - gustavo.junio

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Bem-vindos

Bem-vindos ao blog da Companhia de Aprendizagem.

Um espaço para tecer junto habitando a tela em companhia.

Complexo é palavra com pesada carga semântica por geralmente estar atrelada a conceito de confusão, dificuldade, complicação e desordem.
Do Latim: o que é tecido junto. Tipo de pensamento que une, busca relações e integra os diferentes modos de pensar. Capaz de lidar com o real, dialogando e negociando com ele. Se opõe aos mecanismos reducionistas ou simplificadores.

Segundo Edgar Morin: “É a viagem em busca de um modo de pensamento capaz de respeitar a multidimensionalidade, a riqueza e o mistério do real; e de saber que as determinações impostas a todo pensamento pelo cérebro, pela cultura, a história e pelo social co-determinam sempre o objeto de conhecimento.” (M.O.S.)

Adriana Caccuri Marly Segreto Monica O. Simons Teresa Cristina Bongiovanni

Coordenação da Companhia de Aprendizagem

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